Ando entre os escombros de pessoas que um dia foram fortalezas.
Conheci-lhes as muralhas quando ainda desafiavam o céu, quando havia nas mãos a insolência de quem acreditava que o corpo era uma pátria inviolável. Agora caminho por corredores de pedra vencida.
O tempo não chega com espadas; chega com uma paciência obscena. Vai retirando uma coluna por ano, um nome por esquecimento, um gesto por fadiga, até que aquilo que chamávamos de pessoa se pareça mais com uma casa abandonada do que com alguém.
Assisto a essas ruínas como quem contempla o próprio retrato pintado antes da tinta secar.
Enquanto elas desmoronavam, eu também seguia a minha linha silenciosa. Chamaram-na de juventude, como se fosse um reino; hoje descubro que era apenas um corredor estreito conduzindo ao mesmo precipício. Não houve rompimento algum, apenas uma lenta conspiração das horas. O auge já carregava dentro de si a ferrugem do declínio.
Não é a morte que me inquieta.
A morte, ao menos, tem a delicadeza de terminar o trabalho.
O que me apavora é esta negociação diária entre aquilo que imagino ser e a matéria que insiste em me denunciar. Há em mim qualquer coisa vasta, quase indiferente ao universo, comprimida sob uma pele que aprende a ceder. Um animal feito de fome e memória tentando convencer uma carne cansada a continuar sustentando o teatro. A mente fabrica infinitos; o espelho devolve tendões, cansaço e pequenas traições.
Um amigo me disse, certa vez, que crescer é colecionar despedidas.
Na época achei a frase bonita.
Hoje ela me parece modesta demais.
Crescer é assistir, um por um, aos deuses perderem os joelhos. É aprender o nome das doenças como quem decora a genealogia da própria família. É perceber que nossos pais começam a falar baixo, que nossos heróis passam a respirar com esforço, que as pessoas deixam de morrer apenas nos jornais e começam a desaparecer da mesa de domingo.
Há beleza nas ruínas, dizem.
E há.
A hera sabe abraçar paredes mortas melhor do que muitos amantes abraçam corpos vivos. A poeira é uma artista paciente. A luz da tarde perdoa tudo o que toca.
Mas essa beleza me ofende.
É uma beleza construída sobre aquilo que não pôde permanecer.
Talvez eu tenha nascido com um coração excessivamente disposto a encontrar poesia no vazio, porém a poesia nunca devolveu uma única pedra ao lugar de onde caiu. Nunca restituiu uma voz. Nunca esticou uma pele. Nunca desfez uma rachadura.
Minha inteligência, tão orgulhosa de si, continua sendo uma ferramenta rudimentar diante da única equação que jamais resolverá: tudo cede.
Tudo.
As casas.
Os corpos.
A memória.
A ternura.
Até o amor, esse arquiteto arrogante, constrói usando materiais que apodrecem.
Quero deter o tempo.
Não por dignidade. Nem por sabedoria. Muito menos porque exista alguma lição escondida no envelhecimento.
Quero detê-lo porque sou egoísta o bastante para desejar que os pilares permaneçam de pé enquanto ainda estou dentro da casa.
Porque reconheço, com a covardia de quem continua contando as vigas do teto, que cada ruína que atravesso ensaia a minha.
E não será preciso nenhuma tragédia.
Bastará esperar.
O tempo nunca erra o endereço.