Samira

Ao pai que ficou no passado

Minha mãe me perguntou,

com a delicadeza de quem ainda acredita:

“Você não tem saudade do seu pai?”

E eu procurei uma resposta
que não machucasse ninguém.

Porque a verdade é que
eu sinto falta…

Mas não dele.

Sinto falta do homem
que caminhava de mãos dadas comigo,
do gigante que parecia capaz
de afastar qualquer medo,
do herói que meus olhos de criança
juravam ser eterno.

Tenho saudade das risadas,
das brincadeiras,
da segurança de acreditar
que nada no mundo poderia me alcançar
enquanto ele estivesse por perto.

Mas o tempo levou esse homem.

E deixou outro,
um estranho com o mesmo rosto,
a mesma voz,
o mesmo nome.

Como sentir saudade
de alguém que já não reconheço?

Não…
Eu não sinto falta do pai que existe hoje.

Eu choro, às vezes,
pelo pai que existiu ontem.

Porque existem pessoas
que vão embora
sem sair de casa.

E existem despedidas
que acontecem
muito antes do adeus.

Se me perguntarem outra vez
se tenho saudade do meu pai,

responderei com honestidade:

Não.

Tenho saudade apenas
do homem que um dia
me ensinou a acreditar
que eu sempre teria um herói.

E talvez a maior dor
não seja perder um pai.

Seja descobrir
que a criança dentro de nós
continuou esperando por alguém
que nunca mais voltou.