Versos Discretos

Dia do Ardor (31/07)

Hoje a vontade veste só a pele,
escorrega devagar, quente,
cumprindo a promessa que o olho fez
muito antes do primeiro aperto.
Tem beijo que nasce mudo,
tem dedo que diz o que a boca cala,
e esse arquejo cortando o quarto
feito brasa querendo lenha.

Que o corpo gaste as horas sem pressa,
que essa fúria vire arte,
que cada arrepio ache o seu lugar
e a gente se entenda no sorriso sujo.
Porque o tesão também desabrocha
na espinha torta, no cheiro, na ânsia.
Quando a batida do peito emparelha,
o relógio para de importar.

No fim, a cama nunca esfria,
a fome continua sendo de bicho,
e o fôlego insiste em sumir...
só para a gente ter o trabalho
de achá-lo debaixo do suor
de quem te arranca do eixo.