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O Último Lugar ao Seu Lado

O Último Lugar ao Seu Lado

 

Há uma cadeira que o mundo esqueceu de mover,

ainda diante da janela onde o teu silêncio aprendeu o meu nome.

A poeira tornou-se a coisa mais fiel que ficou;

as pessoas, diferente dela, sempre descobrem um jeito de partir.

 

Carreguei a tua ausência

como antigas estações carregam o eco dos trens que partiram—

sem pedir que voltassem,

apenas lembrando o peso do adeus.

 

Dizem que o tempo é um cirurgião paciente.

O meu costurou a ferida com fios invisíveis,

para que ninguém pudesse admirar a cicatriz,

e mesmo assim cada batida do coração a rasga outra vez.

 

A pior solidão não mora num quarto vazio.

Ela sorri entre pessoas,

enquanto os olhos procuram, em rostos desconhecidos,

aquele que nunca mais voltará a ocupar o lugar ao nosso lado.

 

Há noites em que invejo a chuva.

Ela pode cair sem pedir perdão.

Eu aprendi a ser homem,

e isso tantas vezes significou sangrar sem testemunhas.

 

Talvez as mulheres conheçam outra dor:

a de deixar pedaços da própria alma

em quem jamais percebeu

que segurava um universo inteiro entre mãos delicadas.

 

Se o amor sobrevive em algum lugar,

não é nas promessas, nas alianças ou nas fotografias.

Sobrevive no gesto tolo

de virar o rosto para um espaço vazio,

como se alguém ainda pudesse estar ali.

 

Se um dia lembrares de mim,

não te lembres da minha voz.

Lembra-te do silêncio que ficou depois dela;

foi nele que escondi tudo

o que nunca encontrei coragem para dizer.

 

Um dia outro desconhecido ocupará aquela janela.

A cadeira não saberá os nossos nomes.

A poeira não contará a nossa história.

 

Mas, para além do alcance dos relógios,

toda alma que não conseguimos guardar

continua caminhando ao nosso lado—

calada, amorosamente,

como um trem que chega para sempre

a uma estação que existe apenas dentro do coração.