Existe um charme quase proibido no erotismo discreto.
Aquele que não escancara; só deixa à vista.
Gosto de pensar nele como algo feito para os olhos, não para as mãos — até porque, se as mãos fizessem tudo o que a mente imagina, a tal da \"decência\" surtaria.
O grande truque dessa escrita é conseguir contornar a hipocrisia do que é aceito.
É insinuar. É jogar a semente nas entrelinhas e ver a mente do leitor (essa sim, desobediente) fazer o resto do trabalho.
Certas palavras, quando bem escolhidas, ganham peso. Vão se esticando, ganhando corpo.
É um tatear literário. Uma dança em que a gente diz absolutamente tudo sem precisar usar nenhuma daquelas palavras que chocariam os bons costumes.
Mas afinal, onde mora esse erotismo que não descamba para o vulgar?
Está justamente no cuidado com o texto.
Na escolha precisa de termos que funcionam como um estímulo invisível. A palavra certa entra na mente, faz o caminho dela e acende o fogo sem precisar gritar.
Quer um exemplo simples?
Nem precisa de personagens. Imagine só a curva da letra L encostando, sem pressa, na letra B...
Dá para sentir o arrepio? Aquela pele lisa que, de repente, reage ao toque?
A tentação de ir além é enorme.
Um ritmo que começa lento... uma pausa para respirar... suspiros...
Corpos que se buscam e uma sensação de prazer que não vem do toque físico, mas escorre direto para dentro da sua cabeça.
Consegue sentir a mente esquentar?
Muda a posição, acelera o ritmo.
Sobe, desce, avança e recua.
O peso do ar, a pressão no peito, a respiração cobrando conta — rápido, lento, fundo.
Você sente esse peso sobre você agora?
Precisa mesmo desenhar cada detalhe?
Se a essa altura da leitura você sentiu pelo menos um arrepio correr pela espinha...
então a palavra cumpriu o papel dela.