Kauane de Moraes

A maldição dos que se reconhecem

Houve um dia em que a minha carne descobriu o peso da existência,
e desde então caminho como um templo abandonado,
erguido para um deus que jamais pronunciou o próprio nome.

Foi então que encontrei teus olhos.

Não eram luz.
A luz consola.
Os teus eram abismos antigos,
capazes de ensinar à noite uma escuridão ainda mais funda.

Respirei como quem regressa de um afogamento,
e compreendi, tarde demais,
que certos encontros não salvam:
apenas escolhem o modo da nossa ruína.

Tu arrancaste de mim a solidão
com a violência de um sacerdote
que expulsa um demônio
sem perceber que exila também a última centelha de paz.

Em ti encontrei abrigo
e encontrei batalha.
Havia em teu silêncio
o mesmo aço que sustenta muralhas
e o mesmo frio que acompanha as sepulturas.

Desde então suplico aos deuses
não por felicidade 
(essa flor breve, destinada ao pó)
mas por tempo.
Tempo suficiente para carregar teu nome
como se carrega uma maldição sagrada.

E, se o mundo nos dispersar
pelas eras que devoram impérios,
se os séculos nos cobrirem de cinzas
e outras vidas apagarem nossos rostos,

não temo.

Há almas que não se procuram pela memória,
mas pela ferida.

E eu reconheceria a tua
mesmo que o universo
houvesse esquecido
o próprio nome.