Thomas Vasconcellos Ivanov

Raízes

Raízes

 

Há raízes que perfuram meu corpo

não para matar-me depressa,

mas para decompor-me lentamente,

gota por gota, pensamento por pensamento.

 

Decompõem-me pelo sentimento estranho

de querer entender aquilo que não entendo,

como um bêbado que encara o fundo do copo

esperando encontrar ali o sentido da existência.

 

Por que as coisas são tão confusas?

Por que a vida se veste de ironia,

quando o outro parece saber exatamente

o que devo fazer,

e eu permaneço perdido,

confuso, tateando a escuridão da própria alma?

 

Quero ajudar,

mas como ajudar quem se cala?

Por que não falas?

Por que escondes a dor

de quem estende as mãos sem saber o caminho?

 

Às vezes penso que o egoísmo é cego,

e justamente por ser cego

fere mais do que protege.

Acredita salvar-se do sofrimento,

mas apenas espalha silêncio

entre corações que poderiam compreender-se.

 

Talvez a vida seja assim:

egoísta em sua natureza,

injusta com aqueles

que desejam entender o que não lhes é óbvio.

 

Nós, tolos de alma inquieta,

carregamos a maldição de perguntar demais.

Enquanto outros vivem na superfície tranquila dos dias,

nós mergulhamos nas profundezas turvas

tentando decifrar gestos, silêncios, ausências

e verdades que nunca se revelam inteiras.

 

E assim continuo,

com raízes atravessando meu corpo

e o vinho escuro atravessando minhas noites,

sem saber se busco compreender o mundo

ou apenas encontrar alguém

 

que compreenda esta alma cansada de não entender.