Francisco Queiroz

Carona

Do banco de trás, eu observo:

o dia se esvaindo, o sol se pondo,

as conversas de toda sorte ou azar,

todas com alguma solução, principalmente

quando não exigem de quem as propõe ação.

 

Finjo sono para não ter opinião.

 

No posto, a parada necessária

para se esticar, esvaziar a bexiga,

abastecer o carro com gasolina,

repor a cafeína.

 

Volta a estrada,

muda o condutor, a direção,

mudam as estações de rádio;

o papo acaba.

 

Daqui, as serras parecem tão silenciosas.

A estrada se estica quanto mais se corre.

A chegada é logo ali, mas nunca se chega.

 

Já é noite.

E os pontinhos no céu

percorreram muitos anos feitos de luz

para brilharem hoje para mim.