O prato está posto, o banquete é de cinzas,
Eles brindam o lucro com a água que minguas.
Eu conto os estômatos, o sopro da folha,
Eles me trancam no lado de lá de uma bolha.
Me chamam de \"ecochato\", \"vermelho\", de \"utópico\", de \"entrave\",
Enquanto o mercúrio sufoca a ave,
E o solo, que é o ventre de toda existência,
Vira moeda na mesa da indigência.
Não viram que a terra não tem hemisfério?
Que o fluxo do carbono não liga pro império?
Dividem o mundo em esquerda e direita,
Enquanto a colheita murcha, desfeita.
Apagam a história, queimam os arquivos,
Esquecem os mortos, sufocam os vivos.
Guerreiam por dogmas de deuses de gesso,
E cobram da vida um maldito preço.
Eu sinto o abiótico, a rocha, o granito,
O ciclo da chuva que ecoa no infinito.
Eu sinto a doçura da biodiversidade,
Que cura o veneno dessa nossa vaidade.
O serviço ecossistêmicos, o vento que poliniza,
É a mão invisível que tudo organiza.
Mas o homem, desperto em sua cegueira,
Prefere a fumaça da última fogueira.
É ácido ver que o futuro se apaga,
Na marcha sombria de uma velha praga.
Dogmas políticos, crenças extremas,
Eles criam guerras, nós colhemos problemas.
Querem pagar para criarmos vidas que serão munição em suas batalhas.
Eu queria apenas que o amanhã fosse limpo,
Mas me jogam pedras do alto do olimpo.
Ser humano é ser elo, é ser solo, é ser teia,
Mas a humanidade prefere a areia.
A escuridão avança, o relógio não para,
A ignorância sorri e nos cospe na cara.
Mas sigo consciente, guardando a semente,
Pois a terra é o corpo, e a vida é a mente.
Que o oxigênio e a água nos sirvam de altar,
Que o alimento e a paisagem nos ensinem a honrar.
Somos irmãos na crosta, no mesmo fôlego, no mesmo chão, um único oceano.
A violência é o veneno, a vida é a direção.
Não usem a natureza pra dividir o irmão,
Pois ela é a base de tudo, e o ódio, a ilusão.