Não me perguntes quando tornei-me morto em vida.
A morte é criatura demasiado vaidosa para anunciar a própria chegada.
Há homens que descem ao túmulo;
outros permanecem acima dele,
com os olhos abertos,
os gestos impecavelmente ensaiados,
o sorriso preso aos lábios
como uma máscara herdada dos ancestrais.
Respiram,
Comem,
Agradecem,
Abraçam,
E, todas as noites,
retornam silenciosamente
ao mesmo templo invisível,
onde oferecem a própria carne
ao altar de um deus que jamais responde.
Eu pertenço a essa estranha confraria
dos que apodrecem antes da sepultura.
Minha infância foi um pomar
onde as árvores floresciam de joelhos.
Os pássaros aprenderam cedo
que cantar era um delito,
e o vento,
que nascera para correr entre os galhos,
foi encerrado dentro de um frasco
e chamado de disciplina.
Roubaram-me a linguagem
antes que eu descobrisse
que a alma possuía um idioma.
Deram outro nome às correntes.
Chamaram-nas zelo.
Deram outro nome ao medo.
Chamaram-no virtude.
À mutilação,
deram o título de cuidado.
E, assim,
vi crescer dentro de mim
uma árvore magnífica,
cujos frutos jamais amadureciam,
porque lhe haviam arrancado
as raízes da vontade.
Desde então,
minha coluna aprendeu
a curvar-se antes mesmo
que alguém levantasse a voz.
Minha alma fez da reverência
uma segunda natureza.
Anos depois,
o destino vestiu-se de jardim.
Havia flores.
Promessas.
Horizontes dourados.
Eu não percebi
que as rosas escondiam ferrugem nos espinhos,
nem que os perfumes
eram apenas incensos queimando
sobre antigas ruínas para disfarçar o odor putre do hálito de escárnio e dos dedos roxos cadavéricos do julgamento... perfumes... enchem o caixão com flores perfumadas mas sabem que ali jaz apenas cadáver.
Tomei o labirinto por lar.
Chamei o cárcere de eternidade.
Confundi o inverno
com a fidelidade das estações.
A estação gelada trazia nos lábios
o frio mineral das montanhas
onde jamais nasceu uma primavera.
Não erguia a voz.
Não precisava.
Existem lâminas
que aprenderam a cortar em silêncio.
Suas palavras
não procuravam convencer.
Procuravam dissecar.
Cada frase
era um bisturi polido,
capaz de abrir o peito num corte limpo, treinado com frieza e prazer absoluto pelo desprezo,
assim sem derramar uma única gota de sangue.
Havia um refinamento perverso
em transformar franqueza em ácido,
sinceridade em suplício,
razão em cadafalso.
O mundo inteiro
lhe parecia uma obra defeituosa.
Cada flor possuía um excesso de pétalas.
Cada estrela,
um brilho inconveniente.
Cada sorriso,
alguma culpa escondida.
Somente o espelho
parecia digno de absolvição.
Enquanto isso,
eu confundia permanência
com virtude.
Chamava covardia de serenidade.
Chamava medo de maturidade.
Chamava silêncio de amor.
Cada amanhecer
era um sino fúnebre
anunciando
mais um dia
em que meu corpo pisaria a terra,
enquanto minha alma
continuaria sepultada.
Pregaram-me lentamente
na cruz dos dias comuns.
Não com martelos.
Mas com pequenas renúncias,
quase invisíveis.
Um gesto calado.
Uma opinião engolida.
Uma lágrima devolvida aos olhos.
Uma indignação sufocada
antes de aprender a respirar.
É curioso
como um homem
pode ser crucificado
sem que uma única multidão perceba.
O inverno acreditava caminhar
sob perseguições invisíveis.
Via inimigos
na chuva,
no vento,
nas paredes,
nas sombras.
Eu,
que permanecia mais próximo, tomando o frio direto no tórax, tornei-me o espelho
onde despejava
todas as guerras
que travava consigo.
Recebia a sentença.
Pedia perdão pela culpa alheia.
Agradecia
por ainda não ser expulso
da própria existência.
Ah...
Que grotesca criatura
é o homem
quando desaprende
a própria dignidade.
Fizeram de mim
um falcão
educado para invejar as gaiolas.
Arrancaram-me as garras
e ensinaram-me
que defender o próprio peito
era violência.
Sempre que minha voz,
como um animal ferido,
ensaiava romper o silêncio,
erguiam diante dela
um tribunal de espelhos.
Chamavam-me desmedido.
Chamavam-me cruel.
Chamavam-me louco.
Sentia-me como nas quatro paredes sob olhares infernais das críticas e desejos alheios.
Durante anos,
habitei um manicômio
onde apenas um interno
ignorava a própria cela.
Houve noites
em que desejei incendiar
os pergaminhos do destino.
Atirar aos rios
os retratos envelhecidos das cinzas de mim mesmo, envelhecidos mas que não retratavam meu real ser
Quebraria relógios.
Apagaria nomes.
Permitiria que o vento
reescrevesse minha história
com outro alfabeto.
Mas bastava ouvir
o primeiro estalar
das portas do conflito,
e minhas mãos,
essas velhas traidoras,
esqueciam
que haviam sido criadas
para abrir cadeados e jogar fora as amarras.
Permaneciam imóveis,
como aves
que já não distinguem
o céu
da gaiola.
Não permaneci por amor.
Permanece por amor
quem ainda possui liberdade.
Eu permaneci
porque certos abismos
aprendem a parecer conforto.
Há infernos
que oferecem tamanha intimidade
que a esperança
passa a causar vertigem.
Minha covardia
vestiu durante tantos anos
a túnica da prudência,
o manto da responsabilidade,
a máscara piedosa
da esperança.
Esperava
que um inverno secular
acordasse primavera.
Esperava
que espinhos
aprendessem a florescer.
Esperava
que facas
descobrissem o ofício
das carícias.
Pobre liturgia
dos vencidos.
O inferno
não muda.
Nós é que decoramos
suas paredes, plantamos jardins, e organizamos chás e confrarias
Pendurar retratos
num calabouço
não o transforma
em lar.
Mas, depois de muitos anos,
até as grades
aprendem a parecer janelas.
Hoje já não sei
se a tristeza
habita em mim
ou se fui eu
quem passou a morar
dentro dela.
Minha alegria
não recebeu funeral.
Foi desaparecendo
como um vitral antigo
consumido pelo sal,
pela poeira,
pelas décadas.
Morreu sem testemunhas.
Sem epitáfio.
Sem campanas.
Gota após gota.
Silêncio após silêncio.
Renúncia após renúncia.
Até restar somente
esta figura imóvel,
um homem sentado
sobre as cinzas
da própria primavera,
contemplando
o incêndio
que nunca teve coragem
de extinguir,
nem de abandonar.
Se a morte
me estendesse hoje a mão,
talvez eu a recebesse
com a delicadeza
de quem reencontra
uma velha conhecida.
Não por desejar
o último sono.
Mas porque a vida,
há muitos invernos,
esqueceu o caminho
da minha porta.
Resta-me apenas
o peso desta existência,
na qual continuo respirando
como antigas catedrais
que permanecem de pé
muito tempo depois
de Deus tê-las abandonado.
E talvez
nenhuma condenação
seja mais perfeita
do que esta:
não morrer
pelas mãos do carrasco,
mas assistir,
lúcido,
à lenta execução
que a própria alma
pratica contra si,
enquanto o corpo,
obediente,
continua,
dia após dia,
a chamar de destino
o nome das próprias correntes.
Muito antes
que os sinos anunciassem
o sacramento nas terras dos homens sofridos, secos e vazios,
eu já percorria
os corredores daquele castelo
onde as janelas jamais conheceram
a manhã.
Não foi o ato consagrado quem ergueu minhas muralhas.
Foram os anos anteriores,
esses monges silenciosos
que copiavam, noite após noite,
o mesmo evangelho da culpa.
Me enamorei da tempestade
como quem acredita
que o inverno
é apenas uma primavera atrasada.
Que cegueira.
Cada estação prometia
o primeiro raio de sol,
e eu permanecia
esperando flores
numa árvore
que germinava apenas espinhos.
As horas transformavam-se
numa procissão de pequenas execuções.
Não havia chicotes.
Havia algo mais refinado:
Palavras.
Olhares.
Silêncios calculados.
Tempestades despejadas
sobre o primeiro ombro disponível.
Eu era esse ombro.
Recebia mares revoltos
que jamais haviam nascido em mim.
Era o lixo das marés
depositado sobre uma praia
que nunca aprendera
a recusar o oceano.
Sobre minhas costas desabavam ruínas
ruínas que pertenciam
a edifícios erguidos
muito antes da minha chegada.
Ainda assim,
eu pedia desculpas
pelos escombros que não derrubei.
Chorei.
Ah... Como chorei.
Mas havia lágrimas que jamais alcançavam os olhos.
Eram lágrimas que escorriam por dentro dos ossos.
Lágrimas que enferrujavam a espinha.
Que apagavam o nome que fora dado e um dia esteve escrito em minh\'alma.
Houve madrugadas em que permaneci desperto
interrogando o teto,
procurando descobrir qual monstruosidade habitava em meu peito.
Talvez eu fosse
o defeito do universo.
Talvez Deus,
ao moldar-me,
houvesse esquecido
alguma parte essencial.
Porque era isso
que lentamente comecei a acreditar.
Que toda desordem
encontrava em mim
o seu culpado.
Que toda tristeza
trazia meu rosto oculto.
Que toda tormenta
era convocada
pela simples existência
deste pobre peregrino.
É espantoso
o quanto um homem
pode ser convencido
de que merece
a própria crucificação.
Então vieram
os altares,
as promessas,
os votos.
Não porque o coração
transbordasse esperança.
Mas porque meus pés
já não distinguiam
terra firme de pântano.
Eu havia caminhado tanto sobre a lama
que comecei a chamá-la de chão.
Estava atolado.
Primeiro os tornozelos.
Depois os joelhos.
Depois a cintura.
Depois o peito.
Por fim, a lama alcançou o pescoço.
Olhei ao redor.
Voltar parecia impossível.
Avançar era afundar ainda mais.
Juntei-me como certos náufragos
se agarram ao próprio destroço.
Não porque o destroço os salve.
Mas porque já esqueceram como se nada.
Assim, ergui um lar sobre um brejo.
Construí paredes sobre musgos
e raízes apodrecidas.
Acendi velas numa catedral
cujos alicerces repousavam
sobre águas paradas.
Esperava milagres.
Recebi apenas
o lento afundamento
de quem confundiu
prisão
com permanência,
e permanência
com destino.
Hoje compreendo:
não foi um passo
que me levou ao abismo.
Foram milhares.
Pequenos.
Quase invisíveis.
Cada humilhação aceita em silêncio.
Cada lágrima engolida.
Cada palavra que enterrei
antes que pudesse nascer.
Cada vez
que escolhi permanecer
quando minha própria alma
já havia partido.
E foi assim,
sem estrondo,
sem tragédia aparente,
que um homem inteiro acabou sepultado em vida.