Há palavras que ardem em minha garganta, coisas que eu queria tanto te dizer…
Mas de que adiantaria?
Você as escutaria com os ouvidos frios de quem já decidiu partir,
e responderia com as mentiras que tão bem aprendeu a vestir.
Por que escondeste por tanto tempo que me deixarias?
Embora, no silêncio entre teus gestos,
no vazio dos teus beijos,
no eco dos teus olhos,
eu já pressentisse que não ficarias.
De súbito, olhavas para mim com os olhos fixos de uma coruja,
e repetias que me amava, uma, duas, dez vezes...
Mas teus olhos não dançavam com tua boca.
Não havia luz neles,
nenhuma faísca que denunciasse amor verdadeiro.
O brilho se apagava dia após dia,
e pensaste que eu não notaria.
As cartas de amor que me deixaste,
escreveste com uma mão trêmula na caneta
e a outra escondida,
cruzada, fechada, ausente.
No mais íntimo do meu ser,
eu sei que jamais me amaste.
Não de verdade.
Porque quem ama não foge
quando a alma do outro é revelada em carne viva.
Quem ama não se assusta
com o corpo entregue em fragilidade,
com o coração despido de defesas.
Mas você…
você viu minhas portas fechadas como um desafio,
e só descansou quando arranquei minhas trancas e pus a chave nas tuas mãos.
E então me ergueu como um troféu,
não por amor,
mas por conquista.
Me exibiu em tua vitrine,
e quando o espetáculo terminou,
quando já não havia aplausos,
me deixou no silêncio do tédio que tanto detestas.
E eu fiquei…
no meio da estrada, nu, só,
com frio.
O cadeado ainda mais cravado em meu peito,
meu coração sangrando por dentro.
Tuas palavras duras estão gravadas no meu sangue,
e meu sangue, marcado na tua pele,
mesmo que agora,
você tente esquecer…