J. Miller

Diário do Mês de Junho

Hoje eu acordei

Sentindo as paredes tremerem — elas se arrepiam —,

Ouvindo o guarda-roupa murmurar — ele está de saco cheio —

e com o forro a falar comigo, mas sem entender o que dizia.

A escrivaninha passou a manhã em silêncio

e o prato sujo na pia não fala mais comigo.

Desconfio que o meu quarto quer sair para passear.

 

 

Nesse mesmo dia — ou será outro? —

ouço a minha rotina criticar o capitalismo,

escuto o trânsito engarrafado discursar sobre a efemeridade da vida — e como ele fala alto —

e qualquer \"Bom dia, como vai?\" me empurra contra parede.

Acho que esta Semana quer bater um papo sério com este Ano.

 

 

Semana passada

A preguiça estava tentando...

Já a minha raiva estava na varanda lendo Nietzsche.

O rancor sempre interrompe quando o coração está falando

e a tristeza está sempre tentando chamar minha atenção.

Acho que alguém me roubou a poesia.

 

 

Mas um dia sonhei que

Fui ao trabalho e trabalhei

Fui à academia e malhei

Fui ao restaurante, jantei

Fui à cama, dormi e sonhei

E no sonho do sonho

Vi cruzes, rosa-cruzes, rosa-dos-ventos

Yin-Yangs, ouroboros, números e infinitos.

E, quando acordei,

não vi mais nada além de

símbolos, símbolos, símbolos...

 

J. Miller