Hoje eu acordei
Sentindo as paredes tremerem — elas se arrepiam —,
Ouvindo o guarda-roupa murmurar — ele está de saco cheio —
e com o forro a falar comigo, mas sem entender o que dizia.
A escrivaninha passou a manhã em silêncio
e o prato sujo na pia não fala mais comigo.
Desconfio que o meu quarto quer sair para passear.
Nesse mesmo dia — ou será outro? —
ouço a minha rotina criticar o capitalismo,
escuto o trânsito engarrafado discursar sobre a efemeridade da vida — e como ele fala alto —
e qualquer \"Bom dia, como vai?\" me empurra contra parede.
Acho que esta Semana quer bater um papo sério com este Ano.
Semana passada
A preguiça estava tentando...
Já a minha raiva estava na varanda lendo Nietzsche.
O rancor sempre interrompe quando o coração está falando
e a tristeza está sempre tentando chamar minha atenção.
Acho que alguém me roubou a poesia.
Mas um dia sonhei que
Fui ao trabalho e trabalhei
Fui à academia e malhei
Fui ao restaurante, jantei
Fui à cama, dormi e sonhei
E no sonho do sonho
Vi cruzes, rosa-cruzes, rosa-dos-ventos
Yin-Yangs, ouroboros, números e infinitos.
E, quando acordei,
não vi mais nada além de
símbolos, símbolos, símbolos...
J. Miller