sinto-me um diretor de filmes antigos.
falido.
o público foi embora há anos,
mas eu continuo assistindo à mesma estreia.
já passei de meu auge.
quando tu ainda não havias colocado cores em meus dias,
quando tudo ainda era preto e branco.
sinto falta de minha musa.
teus cabelos cacheados,
tua pele alva,
teu sorriso que encantava,
e das canções que me cantavas.
por mim,
tu serias o protagonista de todas as minhas histórias.
pois foste o único sucesso da minha carreira.
depois de ti, nenhum roteiro mereceu tinta,
nenhuma câmera voltou a registrar algo que valesse lembrança,
já nada merecia de mim meu tempo.
este quarto fede a mofo.
os rolos acumulam poeira,
o projetor falha,
e as latas enferrujadas guardam a única obra
que eu, em um ato de autoflagelo, ainda tenho coragem de rever.
rebobino a fita dia após dia,
como se a película escondesse uma versão diferente de nossa história.
gasto-a quadro a quadro,
procurando uma cena que sempre me escapa.
quero acreditar que, desta vez,
haverá mais alguns segundos,
que enfim chegará a cena do beijo,
que voltarás para mim no aeroporto,
que os créditos esperarão um pouco mais.
há arranhões na película,
já não sei dizer se foram causados pelo tempo
ou pelas vezes que voltei ao início, tolo,
na esperança de que o final tivesse mudado.
ninguém percebeu quando deixei de ser diretor.
desde que tu foste embora,
minha vida inteira não passa de reprise
da única obra que realmente deu certo.
e, mesmo depois de apagar o projetor,
continuo sentado na sala vazia
no aguardo de uma cena que nunca foi filmada.