Não foi o tempo, foi memória,
Quando teus olhos tocaram os meus;
Algo antigo, fora da história,
Acendeu silêncios que o peito escondeu.
Não foi paixão de novela ou cinema,
Foi coisa baixa, quase escondida;
Um olhar cruzado sem fazer cena
No intervalo curto da nossa vida.
Te vi passando com o caderno no peito,
Camisa larga, passo distraído;
Meu coração, batendo sem jeito,
Aprendeu cedo a gostar em silêncio contido.
Chegaste como quem não invade,
Mas conhece cada canto meu;
Teu gesto simples, tua verdade,
Foi casa aberta que a alma reconheceu.
O sagrado morava ali, sem aviso,
No toque breve que não aconteceu;
No quase-sim guardado no improviso
De quem sentia mais do que escreveu.
Nunca te disse, e talvez nem era pra ser,
Algumas coisas vivem só de lembrar;
Há encontros que não pedem viver,
Pedem apenas um lugar pra ficar.