Fábio Alves Leão

ENTRE AULAS

Não foi o tempo, foi memória,
Quando teus olhos tocaram os meus;
Algo antigo, fora da história,
Acendeu silêncios que o peito escondeu.

 

Não foi paixão de novela ou cinema,
Foi coisa baixa, quase escondida;
Um olhar cruzado sem fazer cena
No intervalo curto da nossa vida.

 

Te vi passando com o caderno no peito,
Camisa larga, passo distraído;
Meu coração, batendo sem jeito,
Aprendeu cedo a gostar em silêncio contido.

 

Chegaste como quem não invade,
Mas conhece cada canto meu;
Teu gesto simples, tua verdade,
Foi casa aberta que a alma reconheceu.

 

O sagrado morava ali, sem aviso,
No toque breve que não aconteceu;
No quase-sim guardado no improviso
De quem sentia mais do que escreveu.

 

Nunca te disse, e talvez nem era pra ser,
Algumas coisas vivem só de lembrar;
Há encontros que não pedem viver,
Pedem apenas um lugar pra ficar.