Tibieza crua
Tibieza é café morno.
Nem queima a língua, nem mata a sede.
Fica ali, no meio.
Sem gosto, sem cor, sem pressa.
É banco de igreja ocupado
e coração na feira.
É \"eu creio\" dito baixo
pra não incomodar ninguém.
Tibieza não grita.
Ela acomoda.
Veste fé só no domingo
e guarda no armário de segunda.
Faz promessa e esquece.
Vê o irmão cair e pensa: \"alguém ajuda\".
Não é frio de verdade.
Não é fogo que queima.
É meio-termo que embala.
Que faz achar que está tudo bem...
enquanto por dentro tudo esfria.
O morno não converte ninguém.
Não escandaliza, não salva.
Só ocupa espaço.
Água parada.
Luz apagada.
Tibieza é o maior perigo
porque não dói.
E o que não dói,
a gente não cura.