Versos Discretos

O Frasco de VĂȘnus

No vidro escuro, o segredo se entorpece,
Gota de âmbar, suor de pele aberta;
Tua essência, em frestas, me desperta
O vício em que meu sangue se guarnece.

És peçonha que a língua estremece,
Um tóxico fatal, de boca incerta,
Que em cada gole — a carne descoberta —
Sabe o prazer que a morte nos oferece.

O frasco é pouco para o que transborda,
Teu perfume é o veneno que me guia
Pela trilha onde a razão se descoordena.

Bebo a ruína, a tua forma sorda,
Nessa mistura vil e de alegria:
Matar-me em ti é a minha única pena.