Não é tristeza.
Se fosse,
eu ao menos saberia
o nome daquilo que me afoga.
Também não é saudade,
nem medo,
nem amor perdido.
É pior.
É um quarto vazio
dentro do peito,
onde nenhuma emoção
aceitou morar.
As lágrimas caem,
mas não carregam lembranças.
Caem
porque até os olhos
se cansaram
de procurar algum motivo.
Eu choro
pela ausência.
Pela falta da felicidade
que nunca bate na porta.
Pela falta da tristeza
que ao menos provaria
que ainda existe alguma coisa
viva aqui dentro.
Só há silêncio.
Um silêncio tão pesado
que atravessa os ossos
como se o corpo
estivesse de luto
por alguém
que nunca chegou a existir.
E eu continuo respirando.
Não por esperança.
Nem por coragem.
Só porque o coração
é teimoso demais
para entender
que há dias
em que existir
parece apenas
o hábito automático
de um corpo
esquecido pela própria alma.
Talvez seja isso
o verdadeiro vazio.
Não sentir falta de viver.
Mas sentir falta
de sentir falta.