Acordo cheio de cobertas. Cheio das cobertas, chuto tudo para o chão.
Ufa!
São seis e pouco da manhã. Inverno. O dia demora um pouco para acender. Ainda estou no intervalo entre o acordar e o dormir.
É sábado. Metade do corpo quer acordar, a outra quer dormir. Eu, como comandante, procuro ouvir.
— Sr., posso me sentar? Depois eu levanto devagar para não cair.
— Sr., vamos desligar o celular, virar de lado e voltar a dormir.
— Sr., estou aberto — disse o olho direito.
— Mas eu estou fechado — disse o esquerdo.
E a confusão foi aumentando. Começaram a discutir. As pernas, revoltadas, pularam e sentaram. Muita gente seguiu. Outros se seguraram, tentando resistir.
— Silêncio — intervi.
A boca reclamou.
— Eu mando aqui. Sugiro que se acalmem e entrem em um acordo. Já estamos sentados, então espreguicem. Braços para cima, pernas para baixo. Vai, boca, boceje. De novo. Mãos, movimentem os dedos e acendam o abajur. Olhos, em acordo. Aceitem. Sei que é luz artificial. Quando levantarmos, abriremos a janela.
Narinas e pulmões sorriram.
Mais bocejos.
A cabeça alongou para os lados. O pescoço girou para baixo e para cima.
— Bem — disse —, acho que está decidido. Vamos todos juntos ficar em pé.
— É conosco. Músculos e ossos prontos ao seu comando.
— Eu garanto a energia.
— Eu garanto o impulso nervoso.
— Eu garanto o suprimento sanguíneo.
— Todos ao mesmo tempo agora. Vamos. Alguém mais quer manifestar-se?
Luzes, câmeras, ação.
Um barulho abafado.
O digestivo atrasado finalmente acordou.