Lua em Libra

O Rio Não Escolhe o Mar

Eu te vejo... e te odeio.
Ou talvez odeie apenas o que desperta em mim.
Alegro-me, desarmo-me, e me iludo pensando que ainda posso resistir.

 

Sou um rio que corria calmo,
até que a corrente encontrou teu nome.
Desço em fúria, bato contra as rochas,
quebro-me em mil pedaços,
e, mesmo despedaçado, continuo correndo.

 

Ergo barreiras como um castor levanta sua barragem,
na esperança de conter a enchente do coração.
Mas basta teu olhar, teu perfume,
ou o simples gesto de jogar os cabelos ao vento...
e tudo o que construí desaba em silêncio.

 

Tu me ofereces um doce,
mas o que desejo é o mel que mora em tua essência.
Queria me perder nessa doçura,
como quem esquece do mundo por um instante.

Então me odeio.
Te odeio.
Te amo.

Abraço-te enquanto me rasgo por dentro.
Fujo de um laço,
mas, no fundo, sonho em ser preso por ele.

É confusão?

Não.

 

É apenas o destino fazendo seu ofício.
Assim como nenhum rio escolhe deixar de correr,
também não escolhe o mar que o espera.
Ele apenas segue, vencendo pedras e tempestades,
até encontrar o abraço infinito das águas.

 

E enquanto o soberano do tempo não pronuncia sua sentença,
permaneço em silêncio,
no lugar mais profundo do meu íntimo, esperando.

 

Porque, no fim, todo rio encontra o mar.