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A véspera

Há quem conte os dias para o aniversário. Eu conto os silêncios.

 

Na véspera de completar mais um ciclo, descobri que crescer não era colecionar anos. Era sobreviver às versões de mim que ficaram pelo caminho.

 

Houve um tempo em que eu acreditava que Deus respondia depressa. Hoje entendo que, às vezes, Ele responde com espera. E a espera também é uma resposta.

 

Entre lágrimas, jejuns, orações sussurradas antes de dormir e madrugadas em que o teto parecia ouvir mais do que qualquer pessoa, fui aprendendo que nem toda porta fechada era rejeição. Algumas eram proteção.

 

Carreguei nomes no coração que pensei que levaria para sempre. Fiz planos que nunca saíram do papel. Escrevi cartas que ninguém leu. Sorri em fotografias enquanto tentava convencer a mim mesma de que estava tudo bem.

 

Mas Deus via.

 

Via quando eu dizia \"estou bem\" enquanto desmoronava por dentro.

 

Via quando eu pedia apenas um sinal.

 

Via quando eu insistia em permanecer de pé, mesmo cansada.

 

E, discretamente, sem fazer alarde, foi reconstruindo pedaço por pedaço.

 

Hoje já não sou a mesma mulher que começou esta caminhada.

 

Ainda tenho medos. Ainda faço perguntas. Ainda existem noites difíceis.

 

Mas também existe uma paz que antes eu não conhecia.

 

Existe uma fé menos inocente e mais forte.

 

Uma esperança que não depende mais de pessoas, mas da certeza de que Deus continua escrevendo capítulos que meus olhos ainda não alcançam.

 

Na noite que antecede meu aniversário, não faço uma lista de presentes.

 

Faço uma lista de milagres.

 

O ar que continua entrando nos meus pulmões.

 

As orações que me impediram de desistir.

 

As pessoas que ficaram.

 

As que partiram para abrir espaço.

 

As cicatrizes que deixaram de doer.

 

A mulher que nasceu antes mesmo da data marcada na certidão.

 

Talvez o maior presente nunca tenha sido encontrar todas as respostas.

 

Talvez tenha sido descobrir que Deus permaneceu em todas as perguntas.

 

Quando o relógio marcar meia-noite, o mundo dirá que fiquei um ano mais velha.

 

Mas o céu saberá.

 

Saberá que, antes de completar mais um ano de vida, eu completei mais um ciclo de transformação.

 

E isso... ninguém vê.

 

Só Deus.

 

E eu.