Crônica do Rio Meia Ponte
O Meia Ponte não é rio de cartão postal.
Ele não tem água azul apenas pedras bonitas pra selfie onde era usina.
O Meia Ponte é rio de gente.
Ele nasce tímido lá pra cima e vai engordando na marra, cortando Goiânia no meio como quem abre uma rua. Passa pelo Centro, passa pela mata, passa por bairro rico e por invasão. Não escolhe. Abraça todo mundo igual.
Antigamente diziam que dava pra beber da água dele. Hoje se bebe é de desespero.
Mas mesmo sujo, mesmo cansado, o Meia Ponte trabalha.
Leva a chuva embora quando ela exagera.
Segura a cidade pra ela não alagar de vez.
É o ralo gigante de 2 milhões de gente.
Antigamente de manhã cedo tinha pescador teimoso na margem.
Soltava a linha, cospia no anzol e conversava com a garça.
\"Hoje não sai nada, mas amanhã sai\", ele mente.
E o rio fingia que acreditava.
À tarde tinha criança tacando pedra, tinha casal brigando na ponte, tinha motoboy cortando caminho.
À noite tinha farol de carro, tinha gente correndo na ciclovia, tinha vento que cheirava a terra molhada.
O Meia Ponte já viu promessa de campanha, já viu enchente, já viu corpo boiar e já viu gente se declarar no guarda-corpo.
Ele escuta tudo e não comenta. Só segue.
Os políticos falam que vão limpar ele todo ano.
Os ambientalistas fazem mutirão.
Os goianos reclamam.
E o rio continua lá, fazendo o que rio faz: passando.
Tem gente que tem vergonha dele.
\"Olha que sujeira\".
Mas o que se dever ter é orgulho.
Porque rio limpo tem em muito lugar.
Rio que aguenta cidade inteira cuspindo nele e ainda continua vivo, esse só o nosso.
O Meia Ponte é espelho torto de Goiânia.
Bagunçado, resistente, maltratado, mas teimoso.
Se secar, a cidade chora.
Se encher, a cidade reza.
E se um dia ele for embora, a gente vai entender tarde demais que rio também é casa.
Então da próxima vez que você passar pela ponte, dá uma olhada pra baixo.
Mesmo marrom, mesmo cansado, ele tá levando embora um pedaço da nossa vida.
E trazendo de volta, todo dia, a chance de começar de novo. Enfim, a água que passa não é a mesma, mas o rio continua sendo canal de contradição para Goiânia que é vista como a capital mais arborizada no Brasil.