Há uma inquietação que se instala sem avisar.
Parece que sempre esteve ali,
na infância, sem nome;
na juventude, disfarçada de inadequação;
na maturidade, cansaço por esperar explicações.
Não é um sentimento que grita,
é um que acompanha,
senta ao lado
observa em silêncio.
Passam os anos
e algumas emoções teimam em ficar.
acreditar que:
sentir demais é erro,
precisar de silêncio é falha,
não caber no mundo é defeito de fabricação.
Aprende-se cedo a se adaptar.
Tarde demais a se escutar.
Passa a vida tentando ser menos:
- menos intenso, literal, profundo –
como se a dor viesse de ser quem é,
e não do esforço contínuo de se anular.
Mas chega um tempo
- ainda que depois de décadas –
em que a pergunta muda.
De: “Por que eu sou assim?”
Para: “O que em mim pede cuidado agora?”
Parar de exigir força onde o que havia era cansaço.
Perceber que sair, calar, recusar, simplificar,
não é desistência,
e sim higiene mental.
Nem sempre vale a pena explicar seu mundo interno
a quem não sabe caminhar nele.
Que poucos bastam.
Que o silêncio não é solidão – é trégua.
Nem todo vazio precisa ser preenchido.
Alguns existem, e ponto.
Hoje não busca conserto,
Mas, convivência
Viver em si com menos hostilidade,
caminhar no seu ritmo,
aceitar que, talvez, ele só não caiba ali.
E isso, finalmente,
não dói tanto quanto antes.