No silêncio profundo onde a alma se deita,
A escuridão mansa é a manta perfeita.
Ela esconde o que fere, o que o peito rejeita,
E na ausência de cor, a verdade se ajeita.
Mas a linha do horizonte logo se estreita,
E uma faísca de luz, soberana, se aceita.
É o clarão da razão que a mente deleita,
Que desperta a colheita da vida direita.
Quem dera o mortal entender a receita:
Nenhum lado domina, nenhum se aproveita.
Pois na sombra que cai, a semente respeita
O repouso sagrado que a terra amamenta.
E no raio de sol que o espaço violenta,
O mistério do ser se expande e sustenta.
Luz e treva na dança que o tempo alimenta:
Dualidade que o homem na carne vivencia,
Pois a luz traz a busca, e a sombra, a essência;
Duas faces da mesma e eterna consciência!