Naomi

O teu Ășnico bem verdadeiro

O teu único bem verdadeiro
De Naomi M.

O mercado fecha às dez, as luzes piscam frias,
compras o jantar num corredor de plástico e pressa.
O telefone vibra no bolso, cobrando as contas do dia,
e o mundo lá fora parece uma máquina que nunca cessa.
Olhas para as mãos, para as roupas que a marca assina,
para o contrato de arrendamento que expira no fim do ano;
tudo é emprestado nesta engrenagem que nos domina,
cada ecrã brilha, vendendo a ilusão do plano.
Pertence-te a cadeira onde te sentas para trabalhar?
Pertence-te a foto no feed que o algoritmo vai apagar?
Até a carne que vestes, cansada da rotina diária,
é apenas matéria orgânica, efêmera, passageira, precária.
O trânsito ruge na avenida, o progresso faz ruído,
e tu sentes-te pequeno, um átomo no meio da multidão.
O que sobra de ti quando tudo isto for despido?
O que fica guardado quando o peito silenciar o coração?
É aí que o silêncio da noite se torna absoluto,
e a janela do apartamento fita a mesma lua cinzenta
que já viu impérios caírem e o tempo cobrar o seu tributo,
enquanto o mundo digital arde, se debate e se lamenta.
Olhas o céu sobre o betão, entre antenas e fios elétricos,
e percebes que a tua maior riqueza não tem preço nem papel.
Eles podem medir os teus passos em gráficos simétricos,
mas não pesam o que sentes, não te roubam essa pele.
Porque o teu amor, este fogo que guardas no escuro,
não precisa de subscrição, Wi-Fi ou validação alheia.
É teu. Inteiro. O único tijolo sólido no muro
de uma era líquida que desliza como a areia.
Ame a música que ouves, o amigo que te salva do abismo,
o cão que te espera à porta, o detalhe mais banal;
gaste o teu afeto sem medo do cinismo,
pois amar num mundo frio é o ato mais radical.
E quando o ecrã se apagar e o teu corpo for terra,
quando este século vinte e um for apenas história esquecida,
o amor que plantaste na pressa, no meio desta guerra,
ficará suspenso no espaço, como uma luz refletida.
A lua guardará o teu brilho no topo do arranha-céus,
testemunha de que estiveste aqui, vivo e inteiro.
Nada no mundo é teu, nem os planos que achavas teus,
mas o teu amor é teu, o teu único bem verdadeiro.