Célia Amaral

O avesso do espelho

O lado mau que em mim reside, eu o exilo.

No espelho, no avesso do meu reflexo.

E o tranco lá, para que a sombra se acalme,

Para que o meu veneno não vos toque, não vos fira.

Assim protejo a vossa paz, a vossa crença,

Pois sei que a face da minha escuridão

Seria um peso que não querem sustentar.

Por isso, ali, todo o meu ruim se aloja.

Não serei nunca o que em mim esperam ver,

O molde exato, a forma que me impõem.

Eu serei eu, o que de dentro me mover,

Mesmo que o custo seja o peso, a dor que some.

Então, no avesso do vidro, o mal se esconde,

Mas quando me forço a ver quem devo ser,

No espelho alheio, a minha falha me responde:

Que sou a Má que eles t

emem sem saber.