Vida Dupla (De Naomi M)
Metades de mim caminham pela calçada,
uma máscara sorri para o escrutínio do mundo,
enquanto a verdade sangra, bem guardada,
no sótão de um silêncio denso e profundo.
Visto o disfarce que a sociedade exige,
represento a personagem que aprova o olhar alheio,
mas nenhuma mentira destas me corrige,
nem acalma o terror que trago no seio.
À noite, a outra metade desaba na cama,
perante a ausência daquele que idealizei.
Dói o vazio de quem nunca me ama,
dói o afeto clandestino que censurei.
Ergui um trono a quem nem sabe o meu nome,
venero a indiferença de um olhar distante,
e essa rejeição, que me corrói e consome,
torna a minha vida dupla ainda mais sufocante.
Sou o eco de um abraço que nunca existiu,
um segredo trancado que ninguém quer ouvir,
dividido entre o amor que me baniu
e o medo constante de me descobrir.
Naomi M