Gino, Sinvaldo de Souza

Encantamento de Narcísio

Encantamento de Narcísio

Ele se viu pela primeira vez  
num espelho d’água parado.  
Não era vaidade, era surpresa:  
um rosto que não sabia ser achado.

Tocou a superfície com o dedo,  
e a imagem tremeu, mas não fugiu.  
Descobriu que tinha nome,  
que tinha sombra, que existia em si.

Amou o que via sem entender,  
confundiu reflexo com companhia.  
Ficou horas conversando em silêncio  
com a única pessoa que lhe respondia.

O lago não explicou que era água,  
nem que imagens não têm coração.  
E Narcísio aprendeu da pior forma:  
que se olhar demais é solidão.

Hoje ainda nos vemos no vidro,  
na tela, no olhar do outro, no chão.  
E a pergunta fica boiando:  
quando é amor-próprio  
e quando é prisão?