Maximiliano Skol

O PARQUE DO BOSQUE

O PARQUE DO BOSQUE 

Hoje  acordei tristonho,
Tive pesadelos.
Uma manhã cinzenta,
Manhã triste— pela monotonia lá fora.
Seria um dia chamativo para doses de vodca.
Mas isso fora tempos atrás
E esse desejo incrementa a minha tristeza
Pela incapacidade metabólica  dessa ebriez.
No entanto, a sua percepção interoceptiva
Vem-me com saudade.
Sinto-me cansado.
Indisposto.
E cambaleio mesmo antes  de levantar da cama
E levanto-me— as pernas fraquejam.
E como também me pesam o meu pensar.
Olho pela porta de vidro do meu aposento,
Vejo as plantas, as flores e até a piscina.                                               
O sol ameno do mês de junho.
Vejo tudo despojado de alegria
E me sinto aborrecido.
Pior: tenho de ir ao mercado,
Mas estou indisposto.
Permaneço a pensar nesse desencanto.
Tento resgatar bons momentos,
Boas recordações.
Mas a mente está incapaz de refletir,
Um vazio me pesa.
É domingo.
Melhor levar meu Ring Neck a passear
Passearemos  no Parque do Bosque,
Vamos ver gente.
E já no  quarteirão antes do Bosque ele se agita — alegria premonitória.
Meu Ring Neck gosta daquela pequena  árvore esgalhada.
E das algazarra de vozes femininas.
Ali ele se agarra de galho em galho querendo bicar um toco seco:
Gosta da sensação crocante que sente ao despedaçá-lo.
De algures trago-lhe alguns galhos secos,
Uma criança arguta  vê meu Ring Neck,
Grita e com ela vêm outras crianças.
Um grupo  curioso junta-se a mim
E sinto-me recuperado e eufórico.
Uma energia se apossou de mim
Com as eufóricas crianças no meu entorno.
Demonstrando avidez o Ring  Neck recebe um galho seco que lhe apontei.
—Posso dar-lhe um galho tio?
—Ele vai me bicar?
Uma garotinha suspende a irmã gêmea, Ela se esforça sorridente suportando-lhe o corpinho
Que escorrega pelo seu corpinho hiperestendido.
Enfim o Ring Neck se espicha dependurado, quase a cair.e agarra o galhinho seco
—Pegou,  tio, ele pegou!
O  esforço venceu—ela  se regozija.
Um garoto gorducho e forte comenta:
—É minha vez—ele pegou.
Seria  bom fazer uma ração de galhos secos pra ele, tio, diz o garoto
—Ô, tio  ele defecou nas suas costas—sinto   náusea.
A outra irmã gêmea limpa as fezes com um guardanapo de papel que lhe dei.
—Quem é a mais velha?
—Eu nasci primeiro.
Um garotinha disfarçada em olhar o periquito, roça os dedos na ruga pendente do meu antebraço,
Novamente depois, não satisfeita, roça de leve  os dedinhos.
Eu lhe digo— é a idade, filha.
Ela fica  admirada pela descoberta.
Não deve ter velhos  na sua casa, penso.
—Quantos anos você tem, tio?
Qual é o seu signo, tio?
Eu e minha irmã gêmea somos deste mês de junho,
Signo de  câncer.
Uma emoção me atinge!
—Eu também. Quanto é hoje do mês?
—É dia vinte é oito, tio.
Meu Deus é meu aniversário— sussurro.
Achega-se, um  mototáxi —traz  um container  com sorvetes,
Noto que ele era excepcional,
Disse que se achegou até mim, pois gosta de jazz;
—O senhor cabeludo parece um músico de jazz, e de baterista.
Tenho no meu celular uma coleção de Raul Seixas, ele confessa.
E criançada em festa escolhe o seu preferido sorvete ou picolé.
—Que festa, tio!
—É meu aniversário.
—Então é  seu adversário?
Quantos anos?
—Não vou dizer, são muitos anos.
—Posso adivinhar?
Sessenta, tio
—Mais
—Setenta
Meu avô tem 75 anos, já morreu
—Mais
—Oitenta
—Mais
—Novela e nove anos, tio
—Não, assim também não.
—Então fala,  tio.
—Noventa e dois.
—Poxa, tio, e não morreu ainda?
—Meu avó com 70 anos está de  cadeira de rodas— fala um gorduchinha recem-chegada.
—Poxa, tio, você é rico pagando tanto sorvete
—Nós é pobre.Tio, meu pai me chama, volto já.
Era passado o pôr do sol— que bem não se  via
E uma por uma se foram,
Quando me conscientizei estava só.
Então eu e meu Ring Neck voltamos.
Afinal o meu dia— nem meu aniversário— foram tão tristes assim..
Mais um dia, que  me surpreendeu ingrato.
Mas agora ajoelho-me  em prece de agradecimento.

Tangará da Serra,10/06/2026