Evela Magno

Recomeço

 

Antes, eu me entregava.

Hoje, cubro os olhos.

Não por medo —

mas pela cautela que o tempo, silencioso, ensina.

 

Há uma nudez que não pertence ao corpo.

É a da alma,

quando se abre sem abrigo,

quando acredita que amar basta.

 

Ainda guardo lembranças

daquele dia em que o mundo parecia completo.

Nada faltava,

porque havia você.

 

Hoje compreendo:

você não me escolheu.

E, talvez, a verdade sempre tenha sido esta:

era eu quem insistia em escolhê-la

mesmo quando suas ausências

falavam mais alto que suas vindas.

 

Não direi que estou curada.

Há dores que mesmo que a gente não acredite passam.

 

Mas não desisti de viver

 

Levanto.

Abro a janela.

Vejo o mundo.

Tomo meu café.

Trabalho.

E, pouco a pouco, percebo que o vazio deixado por você

vai sendo habitado por paisagens

que meus olhos apaixonados

não tinham espaço para enxergar.

 

Então eu chamo:

 

O mundo...

Vem me surpreender.

 

Porque a vida, paciente,

sabe colorir os caminhos que ainda não conhecemos.

 

E, talvez, no fim de todas as despedidas,

o maior encontro

seja aquele em que, serenamente,

a gente volta a existir.