Antes, eu me entregava.
Hoje, cubro os olhos.
Não por medo —
mas pela cautela que o tempo, silencioso, ensina.
Há uma nudez que não pertence ao corpo.
É a da alma,
quando se abre sem abrigo,
quando acredita que amar basta.
Ainda guardo lembranças
daquele dia em que o mundo parecia completo.
Nada faltava,
porque havia você.
Hoje compreendo:
você não me escolheu.
E, talvez, a verdade sempre tenha sido esta:
era eu quem insistia em escolhê-la
mesmo quando suas ausências
falavam mais alto que suas vindas.
Não direi que estou curada.
Há dores que mesmo que a gente não acredite passam.
Mas não desisti de viver
Levanto.
Abro a janela.
Vejo o mundo.
Tomo meu café.
Trabalho.
E, pouco a pouco, percebo que o vazio deixado por você
vai sendo habitado por paisagens
que meus olhos apaixonados
não tinham espaço para enxergar.
Então eu chamo:
O mundo...
Vem me surpreender.
Porque a vida, paciente,
sabe colorir os caminhos que ainda não conhecemos.
E, talvez, no fim de todas as despedidas,
o maior encontro
seja aquele em que, serenamente,
a gente volta a existir.