Elisabeth Bianchin

Carta aberta de uma filha

É difícil ser sua filha, é difícil manter a sanidade.

 

Mesmo no auge da minha mediocridade, vocês sempre querem a perfeição.

 

Deus me livre se eu chorar.
Deus me livre se eu gritar.
Deus nos livre se eu conseguir me realizar.
Deus os livre se verem atrás da cortina.

 

Meu sangue no tapete te enfurece? A mim também, pois Deus me livre se eu os incomodar.

 

É revoltante, nauseante, sufocante morar neste \"lar\". A cada dia, uma injustiça. Mesmo que eu nem tenha saído do ponto de partida, me reprimem apenas por ter nascido filha.

 

Não sei se sou um reflexo do seu passado ou se o fato de eu ser quem eu sou causa inveja e frustração. Apenas sei que me querem como um fantoche para agradar a corte.

 

Acaso não sabeis que também sou humana?

 

Eu também sinto, eu também existo, apesar de não quererem que eu viva. Sei que sabem que eu sangro, já o fizeram muitas vezes.

 

Mas poucas foram as vezes em que foram realmente humanos comigo. Em que foram... pais.

 

Afinal, existe um abismo entre \"pais\" e \"genitores\". E eu? Fui sentenciada a ser, para sempre, apenas filha.