Francisco Queiroz
Viagem sem itinerĂ¡rio
Estou em frente ao papel,
A caneta repousa sobre a mesa.
É um trabalho solitário escrever!
Por mais que mil me habitem…
Apenas uma voz sai por vez,
Para ser presa quando escrita
E em seguida solta quando lida.
Singular...
Cada combinação é singular!
Palavra por palavra sendo escrita,
Rabiscadas, rasuradas, rebocadas.
Só se escreve bem apagando-se:
A vaidade, a comparação, a censura...
Fazer-se tinta para deixar-se no papel...
Contraste…
Lemos o preto no branco,
Se fossem iguais não leríamos...
Quanto mais sutil é o traço,
Mais caro é o bilhete de embarque.
Viagem sem itinerário...
O bom escritor constrói os trilhos,
As paisagens, os sons,
A máquina e os vagões…
Mas o leitor é o maquinista,
Pode ir na velocidade que quiser,
Fazer paradas, embarques e desembarques
Tomar todos os desvios que lhe for convenientes.
E cada viagem...
Mesmo que seja
Ao mesmo arranjo de palavras
É de aroma novo, inédito…
E por aí vai...
Nas boas prosas...
Que a vida ganha infinitas vidas...
Vidas, lidas, lindas, vidas...