Poesia Abandonada

O Último Oratório

 

Na janela que outrora abençoava a praça, O peso dos séculos repousa no olhar. A tarde de outono, de linho e de fumaça, Vê o velho pastor sua guarda entregar.

A mão que erguia o cálice sagrado Agora treme, leve como o vento. O anel de pescador, já desgastado, Testemunha o silêncio do momento.

E das pupilas cansadas de ver a dor do mundo, Brota a última gota, cristalina e pura. Não é um pranto amargo ou profundo, Mas o deságue de quem cumpriu a escritura.

Rola na face vincada pelos anos, Lavando o cansaço de uma longa cruzada, Misturando os pecados de todos os humanos Na água benta de sua última jornada.

O teto da Capela Sistina silencia, Os santos de pedra parecem observar A lágrima que cai, num resto de agonia, Para a terra que ele tanto quis salvar.

Fecha-se o livro. Apaga-se a vela. O servo fiel ruma para a luz. E na última gota que da alma se desatela, O homem descansa nos braços de Jesus.