Ayalah VerĂ´nica Berg

E o que resta?

 

Frutos caem  
sem quem os colha.  
O sal se dissolve  
na boca de quem dormiu.  
 
Olhos fechados veem  
o que lábios calados  
nunca ousam beijar.  
 
Sombras abençoam  
o breve.  
Estrelas já foram  
mulheres despenteadas  
no escuro.  
 
Toque é bom  
e o bom mente  
um prazer que se despede  
antes de chegar.  
 
Desejo não pede razão:  
morde a espuma  
e afunda  
com a elegância dos mortos.  
 
Lágrima e riso  
se entrelaçam  
como amantes distraídos  
num velório sem flores.  
 
A madrugada observa  
sem tomar partido.  
Tudo é indiferente,  
até o sono  
que se demora  
e apodrece no ar.  
 
Noite sem sentido,  
mas nua,  
estendida sobre a cama  
como quem espera  
o golpe doce  
do príncipe que não chega.
 
 
E o que resta?
 de Ayalah Verônica Berg