Guacimar Vieira de Mello Noos

Frutos da vida

Certo dia, observei que restavam apenas três ameixas em um pé de ameixeira. Comi uma delas e deixei as outras ao acaso para observá-las. Sentado em uma cadeira de praia, durante uma tarde tranquila, percebi que um pássaro veio e bicou uma das ameixas. Bicou tanto que a fez cair. Na outra, porém, ele nem tocou, tampouco foi atrás da que havia se desprendido do pé. Passaram-se alguns dias, e a ameixa caída foi atacada por formigas. Um caramujo passou por cima dela, até que, um dia, um pássaro a levou para o alto de uma árvore e terminou de devorá-la. Uma de suas sementes caiu na terra, e eu não interferi em nada, deixei a vida correr com seus critérios. Alguns dias depois, um broto nasceu. Observei então que a ameixa que havia permanecido no pé murchou, secou e quase se desintegrou por completo no galho. Se eu fosse uma ameixa, gostaria de ter passado por todas aquelas dificuldades e, ainda assim, ao final apresentar uma linda muda, algo bom para a vida. Pois, por mais que tivesse sofrido, teria cumprido minha parte na continuidade da existência.

 

Arthur de Mello Noos