Noah Ferreira

selene

tu amavas o reflexo da lua no mar

e eu pensava que amavas a mim

 

contemplavas a imagem

que teu desejo desenhava

sobre o vai-e-vem do sal

 

e eu, reduzido ao teu sonho de mim,

aceitando ser aquilo que inventavas 

quando o mundo tremia diante da tua leitura sobre águas

 

a ressaca cessou,

o mar recolheu suas ondas

e o vulto da lua ali permaneceu

tão inteiro quanto na primeira noite em que te vi

intocado pela calmaria,

indiferente ao silêncio das ondas

 

ainda assim insistias em olhar

e a ausência de distorção

a minha verdade em mim

te feriu mais do que qualquer mentira

 

descobriste, tarde demais,

que a claridade do reflexo vinha de outro astro

e não de mim

 

e eu permaneci no breu dos céus

onde sempre estive!

sem nunca ter sido sol

sem nunca ter sido seu