Isabelly.B

Até o Sol Esquecer de Nós

Eu te observo
Enquanto teus olhos passeiam pelos meus
Como quem procura uma porta
Numa casa abandonada.

Você tenta ler os meus pensamentos,
Mas nem eu conheço
Todos os corredores que existem aqui dentro.

Ainda assim...
Há alguma coisa em você
Que desafia a minha memória,
Como se teu nome tivesse sido escrito
Numa vida que esqueci de viver,
Como se o teu coração
Já soubesse o compasso do meu silêncio.

Então me diz...
O que você quer que eu seja esta noite?

O ombro onde tua culpa descansa?
O cúmplice dos teus medos?
Ou a mão que encontra a tua
Quando até a escuridão parece desistir?

Me inventa.
Nem que seja por algumas horas.

Porque o tempo nunca teve piedade
Dos que aprendem a amar tarde demais.

Seja o meu anjo
Enquanto o relógio nos castiga
Com segundos afiados,
Enquanto cada ponteiro arranca
Um pedaço daquilo
Que ainda nem tivemos tempo de construir.

Me ensina o caminho
Para decifrar teus silêncios.
As palavras qualquer um escuta.
Eu quero entender
O que tua respiração esconde,
O que teus olhos pedem
Quando parece implorar por algo.

Não existe amanhã.

Existe apenas esse céu estrelado,
Uma canção lenta
 Escorrendo entre nossos dedos,
E essa noite
Que parece longa o bastante
Para convencer dois desconhecidos
De que o infinito cabe em algumas horas.

Se lá fora o mundo insiste
Em desabar sobre os inocentes,
Deixa.

                                                                                                   Que ele desmorone                                                                                                    Sobre as próprias ruínas,
Enquanto nós
Aprendemos a existir em silêncio.

Aqui dentro,
Enquanto o céu ainda nos cobre
E o amanhecer demora para nos encontrar,
Deixa eu ser o teu anjo.

Não para te salvar.
Mas para cair ao teu lado,
Caso o paraíso também nos vire as costas.

E quando o primeiro raio de sol
Apagar as estrelas uma por uma,
Que reste em nós
A lembrança de que,
Por uma única noite,
fomos duas almas
Sobrevivendo ao próprio fim.