Na verdade, não sei bem o porquê de estar escrevendo isto; digo que é apenas um delírio, ou talvez parte de um. Tentarei escrever o que é de mim, algo que não consigo descrever. Talvez algum sentimento que já saibam, porém eu ainda não. Se vossa massa cerebral apontar algum que possa ser, apenas se recolha, pois não será: é única e exclusivamente sentido por mim.
Digo ao caro ser vivo que esta coisa está lendo, que não desejo que a sinta e espero que nunca tenha sentido. Sinto que é uma verdadeira tempestade sentimental. Faz pensar que és louco, quando na verdade apenas tenta achar uma racionalização para algo sem tal possibilidade.
Começando pelo fim, no qual vem: já se sentiu com borboletas no estômago? Mas não me refiro àquelas boas, aquele sentimento bom, que talvez já sentiu, de ser amado. Digo àquelas que dizem explicitamente: “Será que ela gosta de você?” ou talvez, pior: “Ela está sendo apenas gentil ou realmente gosta de você?”. São dúvidas que corroem o casco de qualquer barco, sem importar-lhe o material. Mas se você, caro ser, for um bom navegante, mesmo que sem experiência, deve refletir.
Quando me refiro a refletir, digo a pensar. Usar esta massa cinzenta que serve apenas para lhe dar carência e pensar. Reforçar as conexões entre os neurônios e refletir. Mas sobre o que refletir? Caro marujo, há várias reflexões.
A primeira é se vale a pena continuar naquele mar com aquele barco. Se o problema for o barco, tudo bem, abandone-o, se não for possível ou for muito difícil retirar tais pestes. Quando o problema é o mar, vale a pena trocar a direção para a qual o mastro leva, alterar a posição das velas. Por mais que o destino fique mais distante, por mais que leve mais tempo, acredite, vale a pena. O tesouro estará lá, se não encontrado.
A resplandecente segunda é refletir: este é o tesouro que quero? O tesouro é o fim; o fim tem que valer a pena. Se nele chegar e for de valor fútil, a viagem terá sido em vão. Às vezes, não temos total ideia do tesouro, mas, diante das observações históricas, diante de cochichos que rolam no tempo, dá para ter uma ideia e adiante decidir.
Por mais que rara, temos a terceira: há tribos naquela ilha? Digo isso pois, se houver, será difícil o acesso a tal tesouro, portanto, valerá a pena? Dentre isso também há duas possibilidades. As tribos já encontraram o tesouro? Se já, o que tu irás fazer por lá? Apenas olhar a paisagem? Agora, sendo a segunda raríssima, se a tribo não o encontrou, pergunte-se se valerá à navegação enfrentá-las. Se houver a possibilidade de qualquer tribo, fique de olho.
Por quarto, a mais comum: há outros navegantes tentando chegar a ele? A decisão mais difícil de todas parte daqui, marujo. Aqui se coloca à prova sua autoestima, seu barco e sua tripulação por completo. Aqui veremos o que estará disposto a enfrentar. Tem-se que pensar amplamente, se há outros navegantes já indo atrás. Se houver e o tesouro valer extrema pena, e se seu mar estiver a seu favor, caro marujo, isto vale a pena. Porém, temos que analisar com cautela se o mar está a seu favor, se o tesouro vale a navegação.
Aqui há outras possibilidades. Talvez há de se encontrar com outros marinheiros, portanto, tenha cautela se acontecer. Pode-se fazer amizade, claro, com interesses. Nunca seja amigo daquele que navega na mesma direção: tesouro é apenas para um, não se divide. Quem é contrário a isso é fraco, pois não tem capacidade de navegar sozinho. Se for necessário afundar o barco de outro, afunde se o tesouro valer a pena.
Se o mar estiver extremamente navegável, se preocupe, pois podem já ter pegado o tesouro ou pode vir uma onda forte ao final e, não havendo treinado sua navegação até tal ponto, acabará afundando.
Aqui, contra tudo: se o mar não estiver a seu favor e já houver outros marujos à procura do tesouro, digo, para sua felicidade, não vá; se for, não sonhe. Digo isto pois, na maioria das experiências, só achará o lugar do tesouro já escavado e terá perdido seu tempo.
Se tiver passado por todas estas reflexões e pensar que vale a pena, deixo esta quinta: o porto. Terás que mudar de porto, caro marujo? O porto é como nossa casa: mudamos apenas para uma melhor. Se o tesouro estiver tão longe a este ponto, recomendo pensar fortemente. Se queres tanto aquele tesouro, assim como quero o meu e, diante de todas as reflexões acima, está valendo a pena, digamos que vá. Mas este sou eu; não me copie sem antes ter refletido. Sou um marujo louco, enfrento qualquer mar independente de como esteja se o tesouro valer a pena e ter se saído bem por tais reflexões. Perseverança? Talvez. Mas já mudei de porto? Não, ainda tenho dependências neste em que estou; entretanto, se possível e for de bom grado, mudarei para assim ter, enfim, o tesouro.
Mas continuando. Se for possível ver, de algum modo, o tesouro, de algum pequeno modo, tente ver. Tente ter o mínimo de contato, independente de como seja. Se sonhar por ele pode ser idealizado e, na realidade, não dar a mínima quando o encontrar, por talvez não valer a pena em sua terra.