Hoje escrevo para despedir, e
para confessar que você tinha razão.
O mundo
talvez nunca tenha sido
o lugar dos contos.
Ainda assim,
eu conheci um pequeno pedaço de Terra
onde o impossível parecia respirar
esses contos.
Uma casa tão simples
que fazia acreditar
que o amor poderia,
silenciosamente,
contaminar o mundo inteiro.
Mas o ouro chegou.
Comprou o amor por míseros milhões,
nunca na história da Terra se pagou tão pouco
por algo imensurável.
O bem mais valioso da Terra.
Veio brilhando,
como sempre chega,
prometendo futuro
e levando consigo
aquilo que não cabia
em cofres,
nem contratos,
nem cifras.
Levou um pedaço de mim.
Não as paredes.
Não os retratos.
Não os móveis.
Levou a esperança
de que existisse um lugar
onde o amor bastasse.
Por isso escrevo.
Não para prender teu voo,
mas para libertá-lo.
Voa,
minha pequena.
Sobe além das nuvens
e não temas o vento.
Mesmo distante,
continuarei desejando
que nenhuma tempestade
alcance tuas asas.
Eu estava tão perto...
Criava,
em silêncio,
uma ferramenta
que sonhava espalhar
a mesma luz da caridade
que um dia encontrei
naquela pequena casa.
Queria mostrar ao mundo
que o amor ainda vence.
Mas...
na exata semana
em que o horizonte parecia abrir-se,
o Universo trava meus passos.
Talvez tenha sido apenas a vida
me avisando que eu não capaz de vencer.
Talvez um aviso que sempre estive cego
e enganado.
Talvez uma ilusão foi criada por mim.
Não sei.
Só sei
que cansei de lutar
contra o peso do ouro.
Cansei de ver
Mamom vencer
onde eu acreditava
que somente o amor venceria
imbatível.
Não me dói perder um lugar.
Dói descobrir
que aquilo que sustentava meus sonhos
já não reconhece sua própria essência.
Talvez muitos digam
que é apego.
Não é.
Porque,
se o amor permanecesse nas mãos certas,
como sempre foi me dito e ensinado,
eu partiria feliz.
A partida sempre fez parte dos planos,
sempre foi conversada e planejada naquele lar.
Já me preparava para finalizar minha missão.
Mas não dessa maneira,
com essas pessoas...
Me sinto completamente enganado e usado
minha pequena.
E ninguém,
além de mim,
saberá explicar
o tamanho desse silêncio.
Agora parto para distante.
Não pretendo estar perto do circo que irá ser criado.
Não irei levando riquezas,
nem respostas.
Levo apenas
a dor e a lembrança
de ter amado sem negociar o amor.
Antes aguardo a última lição a dar.
Torço para uma proposta ou premiação,
fruto dessa árvore divina,
que irei honrar
aquele que o verdadeiro amor praticava.
Ei, se algum dia
o destino cruzar nossos caminhos,
não diminua o voo.
Olhe para mim.
Sorria.
E continue voando.
Quanto a mim...
Eu não tenho mais asas para voar ao teu lado.
Mas, se um dia o céu voltar a acreditar em mim,
e eu, de alguma forma, voltar a acreditar nele,
espero reencontrar-te
onde o ouro jamais aprendeu
a chegar.
Você estava certa...
A razão ainda vence, sim, o amor...
Vega Lira