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Luto

Às vezes eu me pergunto quem eu seria se nada daquilo tivesse acontecido.

Quem eu seria se eu não tivesse aprendido, da pior forma possível, que a vida pode acabar de repente? Quem eu seria se não tivesse descoberto tão cedo que algumas despedidas acontecem antes mesmo de termos idade para entendê-las? Quem eu seria se não tivesse perdido a pessoa que eu mais amava e admirava antes mesmo de aprender a escrever meu nome completo?

Talvez eu fosse completamente diferente.

Talvez eu não passasse a vida inteira esperando que algo ruim acontecesse. Talvez eu não sentisse a necessidade de me preparar para a dor antes mesmo de ela existir. Talvez eu não transformasse o medo em rotina.

Será que eu conseguiria me apegar às pessoas sem, no fundo, acreditar que elas também vão embora? Será que eu deixaria alguém entrar de verdade na minha vida sem começar a construir uma saída para mim mesma? Porque, de alguma forma, eu aprendi que amar também significava perder. E, desde então, uma parte de mim sempre acreditou que se eu me afastasse primeiro, talvez doesse menos.

Mas nunca dói menos.

Será que, quando alguém da minha família adoecesse, eu conseguiria apenas cuidar dessa pessoa? Ou eu ainda sentiria aquela vontade inexplicável de me afastar, como se criar distância pudesse diminuir o impacto de outra perda? É estranho sentir isso. Parece egoísmo. Parece covardia. Mas, na verdade, é só medo. Um medo tão antigo que já nem sei onde ele termina e onde eu começo.

Às vezes penso que deixei de viver muitos momentos porque passei tempo demais tentando impedir que eles acabassem.

Também me pergunto se eu teria escolhido viver do jeito que vivo hoje. Será que eu ainda sonharia com profissões em que minha vida estivesse constantemente em risco? Ou isso só faz sentido porque, depois de perder quem eu mais amava, a morte deixou de parecer um acontecimento distante? Como se, depois daquele dia, eu tivesse entendido que ela sempre encontra um jeito de chegar.

Mas existe um sentimento sobre o qual quase ninguém fala.

A culpa.

A culpa por continuar vivendo.

A culpa por crescer.

A culpa por alcançar idades que ele nunca viu.

Às vezes eu olho para uma conquista minha e o primeiro pensamento não é orgulho. É saudade.

Porque era para ele estar ali.

Era para ele me ensinar a dirigir.

Era para ele reclamar quando eu chegasse tarde em casa.

Era para ele assistir à minha formatura.

Era para ele conhecer a pessoa por quem eu me apaixonasse.

Era para ele me abraçar nos dias em que tudo desse errado.

Era para ele me dizer que tinha orgulho de mim.

Era para ele envelhecer.

E, mesmo sabendo que a vida não funciona assim, às vezes eu me sinto culpada por continuar acumulando memórias que ele nunca pôde viver ao meu lado.

Cada aniversário meu também é um aniversário da ausência dele.

Cada conquista traz consigo um pensamento inevitável: \"Ele deveria estar aqui.\"

Às vezes me sinto vivendo uma vida que também era dele. Como se cada momento feliz carregasse um espaço vazio reservado para alguém que nunca chegou. Como se, em toda fotografia importante da minha vida, existisse um lugar que ninguém consegue ocupar.

O mais cruel do luto é que ele não leva apenas uma pessoa.

Ele leva versões de nós mesmos.

Ele leva futuros inteiros.

Ele leva conversas que nunca aconteceram, conselhos que nunca foram dados, abraços que nunca puderam ser recebidos, viagens que nunca foram feitas, piadas que nunca foram contadas e lembranças que jamais existirão.

As pessoas dizem que o tempo cura.

Eu não sei se cura.

Acho que o tempo só nos ensina a carregar uma ausência sem deixá-la cair.

Porque existem perdas que não diminuem. Nós é que crescemos ao redor delas.

E talvez seja isso que mais doa.

Perceber que eu nunca vou saber quem eu teria sido.

Talvez eu fosse mais leve.

Talvez eu confiasse mais nas pessoas.

Talvez eu não precisasse imaginar o pior antes de dormir.

Talvez eu conseguisse acreditar que o amor não termina sempre em despedida.

Talvez eu fosse uma filha diferente.

Uma amiga diferente.

Uma pessoa diferente.

Mas essa versão de mim nunca teve a chance de existir.

Ela morreu junto com ele.

No dia em que eu perdi meu pai, eu também perdi uma infância inteira que ainda nem tinha acabado. Perdi a inocência de acreditar que as pessoas que amamos sempre voltam para casa. Perdi a certeza de que o amanhã é garantido. E, sem perceber, passei anos tentando proteger um coração que aprendeu cedo demais que o amor pode partir sem avisar.

Hoje eu continuo vivendo.

Eu sorrio.

Faço planos.

Estudo.

Sonho.

Mas existe uma menina dentro de mim que nunca saiu daquele dia. Ela ainda espera ouvir a voz do pai mais uma vez. Ainda imagina como seria correr para contar uma notícia boa. Ainda se pergunta como teria sido crescer com ele por perto.

Talvez o verdadeiro peso do luto não seja apenas aprender a viver sem quem partiu.

Talvez seja aprender a conviver, todos os dias, com a pessoa que nós nunca tivemos a oportunidade de ser por causa dessa ausência.

E acho que essa é a saudade mais difícil de explicar.

Porque eu não sinto falta apenas do meu pai.

Eu sinto falta da filha que eu teria sido se ele tivesse ficado.