Brunna Keila

A Criança que Ficou no Quintal

As Pessoas que Fomos

 

Encontrei Joaquim sentado na varanda, olhando para a rua.

 

— No que o senhor está pensando? — perguntei.

 

Ele sorriu.

 

— No gosto da manga roubada.

 

Achei graça. Não da manga, mas da lembrança.

 

Ele começou a falar das tardes no mato, das frutas tiradas do pé, dos estilingues improvisados, das corridas para fugir de marimbondos e das brincadeiras inventadas quando ainda não existiam telas para ocupar o tempo.

 

Havia dificuldades, é verdade. Faltava luz, a água nem sempre era limpa e a vida era mais dura do que a memória costuma admitir.

 

Mas, enquanto ele falava, percebi uma coisa: a saudade não sente falta apenas dos lugares.

 

Sente falta das pessoas que fomos neles.

 

A árvore pode continuar de pé. O quintal pode continuar existindo. Mas a criança que corria por aqueles caminhos já não mora ali.

 

Quando me despedi, Joaquim continuou olhando para a rua.

 

E eu fiquei pensando que talvez não sintamos saudade da infância.

 

Talvez sintamos saudade das pessoas que fomos quando o mundo inteiro ainda cabia dentro de um quintal.