As Pessoas que Fomos
Encontrei Joaquim sentado na varanda, olhando para a rua.
— No que o senhor está pensando? — perguntei.
Ele sorriu.
— No gosto da manga roubada.
Achei graça. Não da manga, mas da lembrança.
Ele começou a falar das tardes no mato, das frutas tiradas do pé, dos estilingues improvisados, das corridas para fugir de marimbondos e das brincadeiras inventadas quando ainda não existiam telas para ocupar o tempo.
Havia dificuldades, é verdade. Faltava luz, a água nem sempre era limpa e a vida era mais dura do que a memória costuma admitir.
Mas, enquanto ele falava, percebi uma coisa: a saudade não sente falta apenas dos lugares.
Sente falta das pessoas que fomos neles.
A árvore pode continuar de pé. O quintal pode continuar existindo. Mas a criança que corria por aqueles caminhos já não mora ali.
Quando me despedi, Joaquim continuou olhando para a rua.
E eu fiquei pensando que talvez não sintamos saudade da infância.
Talvez sintamos saudade das pessoas que fomos quando o mundo inteiro ainda cabia dentro de um quintal.