O verso, dizem, deve ser um véu,
Um manto sutil sobre a carne exposta,
Negando ao olhar o desejo que, em seu céu,
Exige, na pele, a resposta oposta.
Mas como conter a geometria que se traça
Nesta curva que a luz, audaz, desenhou?
Um côncavo onde a sombra se enlaça,
Onde a mão, em silêncio, o relevo encontrou.
Há um paradoxo em te chamar de Branca,
Pois tal alvura — que o tecido felino recobre —
Não é calma, mas a chama que arranca
O pudor de quem o corpo, em versos, descobre.
É proibido, sussurram, falar do relevo,
Da linha que afunda onde o quadril se insinua,
Mas o poema, traindo o que eu devo,
Revela a carne, macia, clara e crua.
Descrevo a topografia, a margem da seda,
Onde o toque encontra o vácuo da cintura;
E eis a ironia: quanto mais a estrofe veda,
Mais se explicita a nudez dessa criatura.
Pois que se dane o dogma do oculto,
Se a geometria da Branca é pretexto e convite,
Para que o poema, em seu desassombro inculto,
Torne explícito o que a alma não admite.