Fogueira Eterna – O Batismo da Luz
Claudio Gia, Macau RN, 24/06/2026
Nas margens do Jordão, onde a água se faz verbo,
nasce o precursor, voz que clama no deserto:
“Preparai o caminho!” Eco que ainda ressoa
nas noites de junho, quando o Nordeste se ajoelha.
Não é mera data no calendário dos homens,
mas um limiar cósmico entre treva e revelação.
São João, o mais próximo de Cristo em essência,
mergulha o tempo no fogo purificador da fogueira.
Arde a lenha ancestral, símbolo do coração
que se consome para que a luz maior resplandeça.
Nas quadrilhas, o giro circular imita os astros,
ordem cósmica dançada em pés descalços sobre a terra.
Milho, rainha dourada dos campos seculares,
transmuta-se em pamonha, canjica, bolo –
sacramento pagão-cristão da abundância e da humildade,
onde o simples se eleva à mesa da comunhão universal.
Trajes típicos não são disfarce, mas armadura da memória:
xadrezes que guardam o padrão das constelações antigas,
chapéus de palha que protegem a fronte do pensador
que vê, na fogueira, o mesmo fogo que queimou os profetas.
Em Pernambuco e Alagoas, o feriado se faz rito coletivo;
em Macau, o Rio Grande do Norte escuta o mesmo chamado.
Não é folga vazia: é pausa sagrada para que o homem
se batize novamente nas águas da própria cultura.
Ó João, eterno vigilante da aurora,
guarda em nós a chama que não se apaga.
Que cada quadrilha seja uma prece em movimento,
e cada fogueira, um altar onde o tempo se renova.