Estou abraçada ao meu próprio corpo,
tentando ser para mim aquilo que nunca encontrei nos outros,
num gesto tão triste que quase parece maturidade.
Respiro fundo.
Outra vez.
E mais outra.
Há noites em que respirar
parece a única decisão da qual não me arrependo.
Uma tristeza invade meu corpo.
Nada para.
Nem mesmo os mecanismos que a produziram.
Os olhos enchem-se de lágrimas,
mas elas não caem.
Até meu sofrimento sofre de procrastinação.
Fica tudo suspenso:
a água,
a culpa,
o sono,
a biografia inteira.
É madrugada.
A hora em que alguns parecem inteligentes,
os ex-amores parecem necessários
e o inconsciente abre um bar clandestino
para servir versões adulteradas da memória.
Penso em tudo o que poderia ter evitado.
E rio.
Porque essa é a fantasia predileta do ego:
acreditar que a vida foi um erro de cálculo,
quando na verdade foi uma sucessão de apostas
feitas por alguém que mal sabia ler as regras.
Talvez eu pudesse ter evitado aquela escolha.
Ou aquela.
Ou a outra.
Mas se retirassem uma a uma
as pedras do caminho,
eu provavelmente tropeçaria no próprio pé,
por fidelidade ao personagem.
Na minha cabeça há um grito.
Não um grito heroico.
É mais um funcionário cansado
pedindo transferência de departamento.
Mudar.
Mudar.
Mudar.
Como se eu não passasse metade da vida
tentando trocar de pele
e a outra metade
procurando a antiga no armário.
E aqui estou.
Sozinha neste quarto.
Ou quase.
Comigo.
Com todas as versões de mim.
As que sabiam.
As que fingiam não saber.
E as que transformaram a segunda categoria
num projeto de vida.
Sentadas em círculo,
discutindo responsabilidades
como políticos depois de uma catástrofe.
Lá fora o mundo continua.
Casais apaixonam-se.
Casais se despedem.
Alguém faz uma promessa.
Alguém a quebra.
A espécie inteira insistindo
nos mesmos métodos
e surpreendendo-se com os resultados.
E eu abraço meu próprio corpo.
Não por amor.
Por falta de testemunhas.
Como quem procura um colo
e encontra um relatório de desempenho.