Eu não quero gritar.
Mas há dias
em que o mundo inteiro parece caminhar sonâmbulo
sobre um lago congelado,
e algo dentro de mim
quer romper o silêncio
apenas para perguntar:
vocês também estão ouvindo isso?
O estalo sob os pés.
A água escura esperando.
A delicadeza de tudo
prestes a ceder.
Às vezes me pergunto
se a verdadeira loucura
não é enxergar.
Porque olho ao redor
e vejo pessoas discutindo o nome das coisas
enquanto a essência escorre pelo ralo.
Vejo quem fala de amor
cultivando crueldade.
Quem fala de liberdade
aprisionando.
Quem fala de paz
alimentando guerras invisíveis.
E então me pergunto:
será que o mundo se inverteu
ou fui eu que cheguei tarde demais
à compreensão das coisas?
Quando criança,
o tempo era um rio largo e luminoso.
Os dias pareciam infinitos.
O futuro era uma promessa.
Mas existe um momento silencioso
em que a idade deixa de ser um número
e se transforma em percepção.
Começamos a reconhecer padrões.
A enxergar onde certos caminhos terminam.
A perceber que muitas tragédias
anunciam sua chegada décadas antes,
vestidas de normalidade.
Talvez esse seja o peso do conhecimento.
Não saber tudo.
Mas ver demais.
Ver a floresta escondida
atrás da árvore.
Ver as consequências
antes que aconteçam.
Ver rachaduras
onde outros enxergam progresso.
E ainda assim continuar vivendo.
Esse talvez seja o desafio.
Não endurecer,
e eu acho que já falei isso antes.
Porque seria fácil.
Seria fácil fechar os olhos,
escolher um lado,
apontar culpados,
transformar pessoas em inimigos
e seguir em frente.
Difícil é permanecer humano.
Difícil é continuar acreditando
que existe algo sagrado
na simples existência do outro.
Que uma criança rindo,
uma senhora cuidando de flores,
um cão abandonado encontrando abrigo,
valem mais do que todos os discursos
que tentam dividir o mundo.
Às vezes sinto que não pertenço a esta época.
Não porque tenha nascido no tempo errado.
Mas porque ainda procuro coisas
que parecem ter saído de moda, como a
gentileza.
Honestidade.
Coerência.
Respeito pela vida.
Talvez eu seja ingênua.
Talvez.
Mas há algo mais ingênuo ainda:
acreditar que podemos ferir o rio,
o oceano,
sem ferir a nós mesmos.
Que podemos destruir a floresta
sem empobrecer a alma.
Que podemos transformar tudo em mercadoria
sem um dia descobrirmos
que vendemos partes essenciais de nós mesmos.
Por isso sigo.
Nem otimista.
Nem pessimista,
talvez as vezes.
Mas atenta.
Com o coração às vezes pesado,
às vezes partido,
mas ainda incapaz de aceitar
que a indiferença seja o estado natural das coisas.
Porque, no fundo,
ainda acredito que a humanidade
não está separada da Terra.
É a própria Terra
tentando aprender quem é.