Amanda S. Moraes

Não quero gritar

Eu não quero gritar.

 

Mas há dias

em que o mundo inteiro parece caminhar sonâmbulo

sobre um lago congelado,

e algo dentro de mim

quer romper o silêncio

apenas para perguntar:

vocês também estão ouvindo isso?

 

O estalo sob os pés.

A água escura esperando.

A delicadeza de tudo

prestes a ceder.

 

Às vezes me pergunto

se a verdadeira loucura

não é enxergar.

 

Porque olho ao redor

e vejo pessoas discutindo o nome das coisas

enquanto a essência escorre pelo ralo.

 

Vejo quem fala de amor

cultivando crueldade.

 

Quem fala de liberdade

aprisionando.

 

Quem fala de paz

alimentando guerras invisíveis.

 

E então me pergunto:

 

será que o mundo se inverteu

ou fui eu que cheguei tarde demais

à compreensão das coisas?

 

Quando criança,

o tempo era um rio largo e luminoso.

 

Os dias pareciam infinitos.

 

O futuro era uma promessa.

 

Mas existe um momento silencioso

em que a idade deixa de ser um número

e se transforma em percepção.

 

Começamos a reconhecer padrões.

 

A enxergar onde certos caminhos terminam.

 

A perceber que muitas tragédias

anunciam sua chegada décadas antes,

vestidas de normalidade.

 

Talvez esse seja o peso do conhecimento.

 

Não saber tudo.

 

Mas ver demais.

 

Ver a floresta escondida

atrás da árvore.

 

Ver as consequências

antes que aconteçam.

 

Ver rachaduras

onde outros enxergam progresso.

 

E ainda assim continuar vivendo.

 

Esse talvez seja o desafio.

 

Não endurecer, 

e eu acho que já falei isso antes. 

 

Porque seria fácil.

 

Seria fácil fechar os olhos,

escolher um lado,

apontar culpados,

transformar pessoas em inimigos

e seguir em frente.

 

Difícil é permanecer humano.

 

Difícil é continuar acreditando

que existe algo sagrado

na simples existência do outro.

 

Que uma criança rindo,

uma senhora cuidando de flores,

um cão abandonado encontrando abrigo,

valem mais do que todos os discursos

que tentam dividir o mundo.

 

Às vezes sinto que não pertenço a esta época.

 

Não porque tenha nascido no tempo errado.

 

Mas porque ainda procuro coisas

que parecem ter saído de moda, como a 

gentileza.

 

Honestidade.

 

Coerência.

 

Respeito pela vida.

 

Talvez eu seja ingênua.

 

Talvez.

 

Mas há algo mais ingênuo ainda:

 

acreditar que podemos ferir o rio,

o oceano, 

sem ferir a nós mesmos.

 

Que podemos destruir a floresta

sem empobrecer a alma.

 

Que podemos transformar tudo em mercadoria

sem um dia descobrirmos

que vendemos partes essenciais de nós mesmos.

 

Por isso sigo.

 

Nem otimista.

 

Nem pessimista, 

talvez as vezes.

 

Mas atenta.

 

Com o coração às vezes pesado,

às vezes partido,

mas ainda incapaz de aceitar

que a indiferença seja o estado natural das coisas.

 

Porque, no fundo,

ainda acredito que a humanidade

não está separada da Terra.

 

É a própria Terra

tentando aprender quem é.