Kauane de Moraes

Maria e o Departamento de Assuntos Pendentes

Maria carregava dentro da cabeça uma repartição pública.
Não uma repartição moderna, dessas que prometem resolver tudo por aplicativo.
Uma repartição antiga. Com corredores infinitos, armários de aço e funcionários carimbando papéis desde 1987.
Toda vez que a vida lhe entregava uma experiência, ela não sentia a experiência. 
Ela abria um protocolo.
Se alguém demorava a tomar iniciativa, protocolo.
Se gostava de alguém, protocolo.
Se deixava de gostar, protocolo.
Se estava feliz, protocolo também. Afinal, era importante entender a origem daquela felicidade, sua duração estimada e possíveis riscos futuros.
Em algum lugar da sua mente havia um servidor público chamado “Análise”.
Ele trabalhava sem descanso.
— Interessante — dizia ele. — Mas já consideramos todas as hipóteses?
Nunca.
As hipóteses se reproduziam mais rápido que coelhos.
Quando Maria finalmente entendia um problema, surgiam três perguntas novas explicando por que aquela explicação talvez estivesse incompleta.
Era um sistema eficiente.
Tão eficiente que, às vezes, o problema original morria de velhice antes da investigação terminar.
Outro dia, por exemplo, ela passou quarenta minutos pensando se estava preocupada.
Ao final da análise, concluiu que sim.
O que foi um alívio.
Até porque já estava começando a ficar preocupada por não conseguir descobrir se estava preocupada.
Mas o episódio mais impressionante aconteceu numa manhã comum.
Maria acordou feliz.
Sem motivo aparente.
Sem crise.
Sem saudade.
Sem ansiedade.
Sem nenhuma catástrofe prevista para as próximas horas.
Aquilo a deixou profundamente desconfiada.
Passou boa parte do café da manhã examinando a situação.
Talvez tivesse esquecido alguma coisa.
Talvez houvesse um problema que ainda não tinha sido identificado.
Talvez a felicidade fosse apenas a etapa inicial de uma tragédia estatisticamente inevitável.
Às dez e meia da manhã, o Departamento de Assuntos Pendentes abriu uma investigação formal.
Às onze, uma comissão foi formada.
Ao meio-dia, uma força-tarefa multidisciplinar já trabalhava no caso.
Às duas da tarde, depois de extensos debates, a repartição chegou a uma conclusão.
Maria estava feliz.
Era só isso.
O relatório final tinha uma única página. Os funcionários ficaram decepcionados.
Ela também.
Parecia pouco profissional um sentimento não exigir pelo menos cinquenta páginas de justificativa.
À noite, enquanto lavava uma xícara, percebeu que algumas pessoas vivem, outras produzem documentação.
Ela tinha acumulado tantas atas, pareceres e revisões sobre si mesma que, se a felicidade resolvesse aparecer, provavelmente precisaria preencher um formulário antes de entrar.
A boa notícia é que essa descoberta abriu um novo protocolo. Ninguém ficou mais feliz com isso do que o Departamento de Assuntos Pendentes.