Maria Wilma Mota

Amor do meu amor

Querida, você ganhou.

Sim, ganhou.

Receba, com todo o carinho, o homem que um dia acreditei ser o amor da minha vida.

Leve junto o pacote completo.

Leve o homem que esvazia a geladeira sem jamais perguntar se você também queria comer. Que transforma cuidado em obrigação e generosidade em dever.

Leve aquele que é gentil com o mundo inteiro, menos com quem está ao seu lado. Que distribui elogios para outras mulheres com facilidade, mas economiza palavras quando o assunto é você.

Leve o profissional brilhante que sempre encontrará uma forma de diminuir suas conquistas. Porque sua aprovação nunca será mérito. Seu esforço nunca será suficiente. Sua vitória sempre terá uma explicação conveniente para que ele não precise reconhecer seu valor.

Se um dia você crescer, ele dirá que foi sorte.
Se você vencer, dirá que teve ajuda.
Se você conquistar o impossível, ele encontrará um jeito de dizer que não foi tão impossível assim.

Leve também sua generosidade seletiva.

Talvez ele lhe pague uma fatia de torta.
Talvez um jantar.
Talvez um yakisoba que ele mesmo já tenha comido quase inteiro.

Mas não se preocupe.

Você passará os próximos anos ouvindo o quanto deveria ser grata por isso.

Leve as críticas.
Leve as comparações.
Leve a necessidade constante de provar que merece estar ali.

Leve o homem que transforma amor em competição e afeto em escassez.

Eu, por outro lado, fico com a melhor parte.

Fico com a paz.

Fico com a liberdade de não precisar disputar atenção com mulheres que nem conheço.
De não precisar implorar por reconhecimento.
De não precisar diminuir quem sou para caber no ego de alguém.

Você ganhou.

E eu também.

Porque enquanto você recebe o homem que tanto defendi, eu recupero a mulher que precisei abandonar para continuar ao lado dele.

E essa, querida, é a única vitória que realmente importa.