Primeiro, posicione a mão como quem segura a pena.
Não a aperte;
a leveza é fundamental para sentir a textura do papel.
Lembre-se: um verso bem construído exige ritmo.
Comece pela introdução.
O prefácio da poesia está no toque mais suave, quase imperceptível.
Deslize a ponta dos dedos onde a pulsação é mais forte,
onde o sangue se apressa como uma rima rica.
Onde a estrofe se abre, úmida de intenção,
o verso busca o eixo, busca a pulsação.
Não há métrica pronta, apenas o compasso
que a ponta dos dedos traça em lento regaço.
Agora, aumente a intensidade do vocabulário.
A poesia precisa de tensão dramática.
Aumente a pressão, explore as pausas, como se estivesse pontuando um texto importante:
vírgulas breves, pontos de exclamação agudos.
Se o ritmo acelerar,
deixe que a aliteração se perca
no calor do momento.
A estrofe é sua, o tempo é seu.
Sobe o tom da sílaba, um eco de veludo,
a mente se apaga, o poema fica mudo.
Acentua o desejo, na curva da exclamação,
enquanto a mão dita o ritmo da própria fundação.
Por fim, o clímax da obra.
Todo poema erudito conduz a um ponto de virada, uma anáfora que se repete até o ápice da página.
Não contenha a entonação. A leitura deve ser voraz, o verso deve ser sentido no ápice da estrutura,
onde a respiração se torna o único poema possível.
Deixe a tinta — o seu âmago — transbordar sobre o papel imaginário da sua consciência.
Eis o final, a rima que a pele desenha,
a verdade oculta que o corpo desdenha.
No clímax da métrica, o verbo se desfaz:
a poesia é o prazer que, enfim, nos traz a paz.