Amanda S. Moraes

Vale encantado

 

Às vezes penso que os sentimentos nasceram muito antes dos seres humanos.

 

Talvez tenha surgido naquele primeiro instante

em que um pequeno viajante olhou para o horizonte

e percebeu que estava longe de casa.

 

Não da casa feita de pedra,

madeira ou paredes.

 

Mas daquela outra.

 

A casa que mora dentro das coisas.

 

A dos campos intermináveis de folhas-estrela,

das águas sem medo,

dos caminhos iluminados por uma espécie de magia

que os adultos passam a vida tentando esquecer.

 

Desde então,

todos nós caminhamos.

 

Atravessamos desertos de dias comuns,

montanhas de despedidas,

neblinas onde já não reconhecemos

nem a própria direção.

 

E, mesmo assim,

algo continua nos guiando.

 

Não um mapa.

 

Não uma bússola.

 

Talvez apenas a memória difusa

de um encantamento antigo.

 

Porque existem momentos estranhos.

 

O cheiro da primavera.

 

Uma música escutada por acaso.

 

A luz dourada atravessando uma janela.

 

E, por um segundo apenas,

é como se as árvores se movessem novamente,

como se os ventos conhecessem nosso nome,

como se o caminho para o Vale Encantado

estivesse logo depois da próxima colina.

 

Mas ele nunca está.

 

Ou talvez esteja.

 

Talvez o Vale Encantado nunca tenha sido um lugar.

 

Talvez seja essa sensação rara

de estar profundamente vivo.

 

E seja por isso que os sentimentos as vezes doem. 

 

Não porque perdemos alguma coisa.

 

Mas porque, em certos instantes,

lembramos da existência de uma beleza

grande demais para permanecer.