Josi Moreira

Entre o Ir e o Ficar

 

Estranha SOU.
Talvez porque carrego mares em direções opostas,
um coração que deseja partir
e raízes que insistem em permanecer.

Sou feita de contrastes.

Há dias em que busco o abraço do mundo,
o calor das vozes, os encontros, os afetos.
Em outros, desejo apenas a companhia do silêncio,
onde a alma conversa consigo mesma
sem precisar traduzir o que sente.

Habito a fronteira.

Entre o ser e o não ser,
entre a presença e a ausência,
entre a vontade de pertencer
e a liberdade de não caber.

Não me encaixo nos moldes desenhados,
nas formas prontas,
nos caminhos que esperavam de mim.
E talvez seja porque minha identidade
não foi feita para paredes estreitas.

Sou falha, incompleta, humana.
Carrego rachaduras que não escondo,
porque foi por elas que a luz encontrou entrada.

Não pertenço inteiramente ao barulho,
nem ao silêncio.
Não sou apenas partida,
nem somente permanência.

Sou a travessia.

A pergunta que não termina,
o verso que se recusa a concluir,
a contradição que respira
e faz da própria incerteza um lar.

Se sou estranha, que seja.

Pois minha existência floresce justamente aí:
na dialética do existir,
na coragem de ser muitas em uma,
e de caminhar pelo mundo
sem precisar caber nele para ser inteira.