Depois que você se foi
eu precisei redistribuir o meu vício.
Passei a comer mais,
como quem tenta preencher uma ausência
pela via mais literal possível.
Mas o corpo cobra da tristeza
um aluguel mais alto do que a alma suporta.
Então comecei a comprar.
Comprar era mais limpo.
Os objetos não engordam,
apenas ocupam espaço,
o que, filosoficamente,
é quase a mesma coisa.
Existe uma honestidade constrangedora
em admitir:
a matéria me acalma.
A superfície fria das coisas,
o peso exato,
a posse,
o simples fato de dizer
“isso é meu”
produz uma paz quase política.
E talvez exista nisso
alguma compensação infantil:
eu escolhi,
eu paguei,
eu tenho.
Diferente de nós.
Diferente de mim
em você.
E no fim,
minha maior conquista
não foi o novo closet.
Foi poder comprar.
Existe quem possua objetos
como mera extensão da utilidade,
e existe quem os acumule
como quem ergue barricadas discretas
contra o vazio.
Porque certas faltas,
quando antigas demais,
abandonam o campo do sentimento
e passam a morar na estrutura do indivíduo.
Já não doem o tempo inteiro.
Organizam.
Escolhem roupas,
parcelam compras,
salvam itens no carrinho às duas da manhã,
como se o desejo pudesse,
através da repetição,
corrigir retrospectivamente
alguma miséria emocional.
Talvez eu nunca tenha querido as coisas em si.
Talvez eu quisesse
a sensação primitiva de não depender.
A ilusão adulta
de que possuir é o mesmo que estar seguro.
Há uma humilhação específica
em precisar de alguém.
Os objetos ao menos oferecem
uma reciprocidade silenciosa:
ficam onde são deixados.
E eu sei como isso soa.
Mas depois de certo tipo de abandono,
controlar pequenas materialidades
parece menos futilidade
e mais reconstituição psíquica.
Como se cada compra dissesse,
num idioma extremamente capitalista:
“dessa vez,
a falta não me levou inteira.\"