Kauane de Moraes

Casa de penhores

Depois que você se foi

eu precisei redistribuir o meu vício.

 

Passei a comer mais,

como quem tenta preencher uma ausência

pela via mais literal possível.

Mas o corpo cobra da tristeza

um aluguel mais alto do que a alma suporta.

 

Então comecei a comprar.

 

Comprar era mais limpo.

Os objetos não engordam,

apenas ocupam espaço,

o que, filosoficamente,

é quase a mesma coisa.

 

Existe uma honestidade constrangedora

em admitir:

a matéria me acalma.

 

A superfície fria das coisas,

o peso exato,

a posse,

o simples fato de dizer

“isso é meu”

produz uma paz quase política.

 

E talvez exista nisso

alguma compensação infantil:

eu escolhi,

eu paguei,

eu tenho.

 

Diferente de nós.

 

Diferente de mim

em você.

 

E no fim,

minha maior conquista

não foi o novo closet.

 

Foi poder comprar.

 

Existe quem possua objetos

como mera extensão da utilidade,

e existe quem os acumule

como quem ergue barricadas discretas

contra o vazio.

 

Porque certas faltas,

quando antigas demais,

abandonam o campo do sentimento

e passam a morar na estrutura do indivíduo.

 

Já não doem o tempo inteiro.

Organizam.

 

Escolhem roupas,

parcelam compras,

salvam itens no carrinho às duas da manhã,

como se o desejo pudesse,

através da repetição,

corrigir retrospectivamente

alguma miséria emocional.

 

Talvez eu nunca tenha querido as coisas em si.

 

Talvez eu quisesse

a sensação primitiva de não depender.

A ilusão adulta

de que possuir é o mesmo que estar seguro.

 

Há uma humilhação específica

em precisar de alguém.

Os objetos ao menos oferecem

uma reciprocidade silenciosa:

ficam onde são deixados.

 

E eu sei como isso soa.

 

Mas depois de certo tipo de abandono,

controlar pequenas materialidades

parece menos futilidade

e mais reconstituição psíquica.

 

Como se cada compra dissesse,

num idioma extremamente capitalista:

“dessa vez,

a falta não me levou inteira.\"